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ÍMPETO (Poesia de Rodrigo Domit)

Aquela paixão
- todos diziam
era atraso de vida


o que ninguém sabia

é que não tenho pressa







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com.br

Concurso: 4º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - 2013
Organização: Festa Literária Internacional de Pernambuco
Classificação: Seleção para publicação

SITIADA (Poesia de Rodrigo Domit)

As primeiras folhas secas
crepitavam no fogo baixo

A fumaça, escura e densa
tomava forma de presságios

- o inverno encerrou a trégua -

E as portas tremulam
- reverberam irritadiças
pela iminente violência

Em breve marchará
- o exército do desespero
sobre as ruínas da consciência







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com.br

Concurso: 4º Prêmio Literário Sérgio Farina - 2012
Organização: Centro Cultural José Pedro Boéssio - São Leopoldo - RS
Classificação: Menção Honrosa

ASPIRAÇÕES (Conto de Rodrigo Domit)

Ela era da época em que se espalhava a sujeira pela casa com o espanador, tarefa árdua e que não resolvia o problema do pó, mas que, ao menos, ao dispersá-lo, tornava-o quase imperceptível, ignorável. Tal como o espanador, em relação aos outros problemas da casa e da família, bases às quais se resumia sua vida, dispersava as nuvens espessas com pensamentos e tarefas aleatórias, como testar uma nova receita, cuidar do jardim ou aprender as técnicas de ponto e cruz da revista que comprava sempre que ia ao mercado, um dos poucos pequenos prazeres aos quais ela permitia-se.
Nos trinta e cinco anos de casada, abriu mão de quase todas as suas aspirações. Desistiu da faculdade, da carreira de psicóloga, dos passeios pela praça aos domingos (incluindo o almoço fora e o sorvete, sem obrigação de cozinhar ou lavar louça), das viagens ao Pantanal e ao Nordeste, do cachorro, dos dois gatos e de muitos outros planos e desejos, todos dissipados. Além disso, fazia vista grossa às grosserias, ao excesso de trabalho e aos caprichos do marido, o senhor Leopoldo Guimarães, sujeito mais sovina da cidade. Diziam que ele passava metade do dia preocupando-se em ganhar mais dinheiro e a outra metade preocupando-se em não gastá-lo; Com exceção dos domingos, que o velho respeitava como se por força de lei. A maioria fazia piadas e zombarias, mas quem sofria mesmo era ela, privando-se, presa por si mesma àquela casa com nuvens espessas de pó.
Naquela manhã de domingo, por ser aniversário dela, o marido deixou-a dormir até mais tarde, foi até o jardim, arrancou de lá algumas das rosas de que ela mais cuidava, amarrou-as com um pedaço da hera que subia pelo muro da rua e tentou surpreendê-la com o buquê improvisado e com uma xícara de café na cama. Não teve sucesso na surpresa, assim como não havia tido em todos os outros aniversários múltiplos de cinco, em que ele fazia exatamente a mesma coisa - intercalando com o cartão de próprio punho que entregava nos aniversários dos entremeios. Ainda que decepcionada, ela lembrou-se de como sorriu no ano anterior e estampou no rosto aquele mesmo sorriso insosso, agradeceu de cabeça baixa e foi preparar um chá; Detestava café.
Pouco mais tarde, naquele mesmo dia, o filho mais velho foi visitá-la. Aquele que trabalhava fora, na cidade vizinha, porque o mais novo não ia até a casa dos pais havia mais de cinco anos, desde que o pai o expulsara de lá, alegando que os gastos com telefone estavam muito altos e que havia chegado a hora dele andar com as próprias pernas. Ela permaneceu em silêncio durante a discussão e a partida; E arrependeu-se depois da inércia, mas mantinha contato com o filho por cartas que ela deixava para uma amiga dele, a caixa do mercado. O primogênito, que apareceu com um grande pacote e um sorriso maior ainda, havia fugido de casa cedo porque sabia que, enquanto morasse lá, continuaria brigando com o pai, em defesa da mãe e do caçula. Quando o senhor Leopoldo apareceu na sala de entrada, atraído pelos ruídos de visita recém-chegada, em uma das raras excursões além da poltrona no domingo, cumprimentou-o com um aperto de mão e um tapinha nas costas; Para o velho, aquilo era sinal de muito respeito, adquirido por enfrentar o mundo lá fora e, de quebra, reduzir as despesas da casa. Após o cumprimento, o filho pouco disse e logo despediu-se; Não se sentia bem ali, nunca conseguiu dissipar os traumas.
Pouco interessado pelo filho, pela esposa ou pelo pacote, Leopoldo voltou a recostar-se na poltrona da sala de televisão. Enquanto isso, ela abriu o pacote, primeiro tentando as beiradas e depois, ansiosa, o rasgando em pedaços com as unhas. Leu na embalagem: aspirador de polvo. Riu um pouco da tradução em espanhol ao imaginar o pobre molusco sendo sugado por aquele equipamento da foto, coitado, com os tentáculos ainda para fora, debatendo-se. Ao retirá-lo da caixa, conferiu o manual, montou todos os tubos e foi em busca de um local propício para o primeiro teste.
Chegando à biblioteca - que não tinha nenhum livro novo porque Leopoldo dizia que livro novo era um gasto desnecessário, uma vez que todos se acabariam no alfarrabista da praça central - ela ligou o aparelho na tomada e, de repente, viu-se fazendo desaparecer as nuvens espessas de pó. Camada por camada, retirava o pó de cada prateleira, cada coleção incompleta de enciclopédias (era muito difícil completar alguma comprando apenas as descartadas) e, também, do chão, do ar, de todo o lugar. Quando desligou o aspirador, viu-se em um novo ambiente, verdadeiramente limpo, leve.
Tomada por um novo ânimo, com um brilho incomum nos olhos, partiu para o quarto do casal e ligou novamente o aspirador. Retirou todo o pó do chão, do ventilador de teto, da cabeceira e da penteadeira. Quando foi tirar o pó do criado mudo, uma foto mal presa no porta-retratos acabou puxada para a boca do aparelho. Assustada, após duas tentativas com o pé, abaixou-se, desligou o aspirador e a foto caiu. Ao ver que se tratava de uma foto do marido na viagem de negócios que fez sozinho a São Luis e Salvador, programou o aparelho para a força média e mirou o tubo novamente para a foto. Esta dobrou-se, estalando, e rebateu sonoramente em cada curva do cano até pousar silenciosamente em algum lugar distante.
Surpresa com a potência do aspirador, ela abriu mais ainda os olhos brilhantes, sorriu e apontou a boca do tubo para o enxoval que jazia sobre a cama - com as iniciais dele e dela bordadas em ponto e cruz. Sugou toda a roupa de cama, incluindo os travesseiros. Depois, entre uma gargalhada e outra, aspirou todos os porta-retratos do criado mudo e as roupas e sapatos do armário. Seguindo para o banheiro, aspirou as escovas de dentes, as toalhas de banho - igualmente bordadas – e, por fim, os óleos de banho e perfumes que ele nunca passou nela ou por ela.
Do banheiro ela seguiu para a cozinha, ainda mais animada – quase pecando pelo excesso - e absorveu primeiro os eletrodomésticos, depois o jogo de talheres em prata - presente de casamento, ainda na caixa, as taças de vinho - que nunca foram utilizadas porque vinho era muito mais caro do que cerveja - e os velhos copos de requeijão. No entanto, quando ela virou o tubo em direção aos pratos, aquele que estava no topo da pilha passou por cima dos outros e espatifou-se no chão. Atraído pelo barulho, o velho Leopoldo levantou-se da poltrona e foi até a cozinha; Deu de cara com ela, com aqueles olhos brilhantes e esbugalhados, assustadora e excessivamente animada.

Quando os policiais chegaram, convocados pelos vizinhos que estranharam a barulheira naquela casa costumeiramente silenciosa, encontraram-na sorrindo, de olhos bem abertos, realizada e sentada em um canto da casa vazia - de móveis e traumas. Os braços e pernas do velho Leopoldo, todo desconjuntado, ainda debatiam-se em um último esforço.







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com.br

Concurso: 23º Concurso de Contos Paulo Leminski - 2012
Organização: Biblioteca Pública Municipal de Toledo - PR
Classificação: Menção Honrosa

BARBÁRIE (Conto de Rodrigo Domit)

O sapatinho do bebê jazia no meio da rua enquanto ele permanecia estático, em estado de choque.
Os outros membros da família estavam sendo carregados para a calçada pelos vizinhos que se aproximavam. Dois dos corpos já estavam cobertos por panos improvisados. Incrédulo, ele observava a cena, esfregava os olhos e passava as mãos nervosas pelos cabelos.
Enquanto uma multidão de curiosos aproximava-se, atraída pela freada, pela pancada no ponto de ônibus e pelos gritos, ele permanecia perdido em seus próprios pensamentos. A consciência lhe transbordava, dando ânsias e tonturas. Decidiu sentar-se e, após retornar ao banco do motorista, abaixou a cabeça e tentou segurar entre dedos trêmulos o turbilhão de ideias e o peso da culpa.
Naquele momento, pensou: “Como é que eu vou viver com isso?”. A primeira batida seca dissipou a dúvida. Os gritos da multidão abafaram quaisquer outros questionamentos:
- Assassino!







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: 3º Concurso de Microcontos de Jundiaí - 2012
Organização: Secretaria de Cultura de Jundiaí - SP
Classificação: Selecionado para publicação

O VULTO NA CADEIRA VAGA (Poesia de Rodrigo Domit)

No meio do caminho

havia duas pedras


de gelo


e uma dose generosa de saudades







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: Concurso Literário de Presidente Prudente (CLIPP) - 2012
Organização: Secretaria de Cultura de Presidente Prudente - SP
Classificação: Selecionado para publicação

FRAGMENTOS (Poesia de Rodrigo Domit)

Quebrou-se

no mergulho do pássaro

o espelho d´água







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: 12º Prêmio Escriba de Poesias - 2012
Organização: Secretaria de Cultura de Piracicaba - SP
Classificação: Selecionado para publicação

IRREMEDIÁVEL (Poesia de Rodrigo Domit)

A louça delicada

atirada na parede

partiu o silêncio
- em mil pedaços







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: 3º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - 2012
Organização: Festa Literária Internacional de Pernambuco
Classificação: Selecionado para publicação

Concurso: 21º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - 2012
Organização: Secretaria de Cultura de Porto Alegre - RS
Classificação: Selecionado para publicação

COCHICHO (Poesia de Rodrigo Domit)

Ela veio caminhando
toda acanhada

querendo me contar as boas novas


Aproximou-se de mim

com as mãos fechadas
diante do rosto

assim, como se trouxesse
só pra me mostrar

ao abrir dos dedos
                    um vagalume







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
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Concurso: 9º Concurso Poemas no Ônibus de Gravataí - 2012
Organização: Fundação de Arte e Cultura de Gravataí - RS
Classificação: Selecionado para publicação

Concurso: Mobilização Nacional "Um poema em cada árvore" - 2012
Organização: Instituto Psia - Governador Valadares - MG
Classificação: Selecionado para publicação

INDISTINTO (Poesia de Rodrigo Domit)

Dialogava
ao mesmo tempo

com tantas referências

que sua obra
no fim das contas

era apenas um burburinho







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: I Prêmio AltFest! de Poesia- 2011
Organização: Festa Literária Internacional de Pernambuco
Classificação: Selecionado para publicação

CAIXA DE MÚSICA (Conto de Rodrigo Domit)

Nos raros momentos de lucidez, chorava pelos cantos, percebendo-se condenada.

No entanto, quando permanecia presa ao passado, alegrava-se e comovia-se, repetindo e recriando as mesmas histórias. Revolvendo-se em caminhos e devaneios, tornava-se bailarina, refém de sua própria caixinha de memórias.







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: Concurso Sul Info de Minicontos - 2012
Organização: Sul Info Publicações
Classificação: Selecionado para publicação

Concurso: 3º Concurso de Microcontos de Jundiaí - 2012
Organização: Secretaria de Cultura - Jundiaí - SP
Classificação: Selecionado para publicação

ALICE NA CIDADE MARAVILHOSA (Conto de Rodrigo Domit)

Estava perdida naquele lugar repleto de gente maluca

De uma hora para outra, diante das construções e do caos, sentia-se excessivamente pequena

No entanto, em outros momentos, observando as sutilezas humanas e da natureza, sentia-se parte daquela coisa enorme que não conseguia definir com nome algum







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: I Concurso Literário da Uniso - 2012
Organização: Curso de Letras da Uniso
Classificação: 2º Lugar

SINFONIA DO MEDO (Conto de Rodrigo Domit)

Quando aquele jovem casal mudou-se para o 209, as batidas e gritos viraram a trilha sonora da rotina

A entrada dos metais, graves, adicionou tensão

Por fim, ouviu-se apenas um sopro agudo, último suspiro

A platéia permaneceu estática, cada um em sua poltrona







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: 1º Concurso Bar do Escritor - 2009
Organização: Bar do Escritor
Classificação: 6º Lugar

TRAÇAS (Poesia de Rodrigo Domit)

As traças devoraram livros
e destrincharam jornais
as traças roeram músicas
e mutilaram filmes

naquela época,
devoraram até pessoas
- famílias inteiras


Após anos de clausura
abriram-se as portas e janelas
os novos ares vieram
e as traças esconderam-se

em cantos obscuros
onde até hoje permanecem
- como se fossem invisíveis


Após anos de negação
continuamos adiando
para amanhã, quem sabe
a tarefa indispensável

de revirar armários
e destrancar gavetas
de explorar porões
- sem esquecer dos sótãos

de jogar luz aos fatos
descortinar as traças

para evitar que se repita
a tragédia como farsa







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: 8º Concurso Literário de Suzano - 2012
Organização: Secretaria Municipal de Cultura - Suzano - SP
Classificação: 1º lugar

OS SOLDADOS PERDIDOS DE NAPOLEÃO (Conto de Rodrigo Domit)

Marcharam para o leste, em meio aos campos incendiados e cidades fantasmas. Ainda hoje, passados duzentos anos, alguns soldados fatigados batem à porta dos camponeses – perguntam a direção de Moscou.







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: Concurso "Miniconto para Dickens" - 2012
Organização: L&PM Editores
Classificação: 4º lugar

AUDÁCIA (Conto de Rodrigo Domit)

Pela primeira vez em trinta anos, ela olhou fundo, bem nos olhos do marido:

- Você que falou para o menino não se amiudar?

Ele ficou surpreso com a novidade do enfrentamento, corrigiu a postura e falou com ar superior e desleixado - como se respondesse só porque queria mesmo.

- Falei sim, filho meu não traz desaforo para casa!

Mordendo o lábio inferior e contraindo as quinas dos olhos, ela continuou:

- Não traz mesmo. E nunca mais vai trazer

Ele ainda tentou abraçá-la, mas o bote da mão esquerda o afastou daquele choro que era só dela.






Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: Concurso de Contos Machado de Assis - 2011
Organização: SESC Regional DF - Brasília - DF
Classificação: 1º lugar

ABAFADO (Poesia de Rodrigo Domit)

Quando vem a brisa

mesmo que se arrastando


as folhinhas comemoram

dando cambalhotas

pelo amplo calçadão







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: XIV Prêmio Cidadão de Poesia - 2011
Organização: Sindicato dos Empregados no Comércio - Limeira - SP
Classificação: 1º lugar

CACHOEIRA (Poesia de Rodrigo Domit)

Do alto do precipício

atirou-se, impulsiva


foi a gota d’água







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: Prêmio Cataratas - 2011
Organização: Fundação Cultural - Foz do Iguaçu - PR
Classificação: 3º lugar

DEFICIÊNCIA (Crônica de Rodrigo Domit)

“Deficiência - s. f. - Def.: toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função anatômica, fisiológica, psicológica ou intelectual.”


O carro passou por mim um tanto rápido - não que estivesse correndo, mas seguia em uma velocidade imprudente ao considerar que estávamos dentro do estacionamento de um mercado. Ao avistar uma vaga ali, tão perto da porta, o motorista não hesitou, engatou a ré e começou a manobrar o carro; Sendo a vaga bem ampla, a tarefa nem exigiu muito esforço.

Eu permaneci ali parado, observando - nem sequer atravessei a via. Não era a primeira vez que eu via aquela mesma cena: um sujeito apressado estacionando na vaga reservada para pessoas com deficiência; Mas dessa vez, fiquei tentado a observar todo o desenrolar, só para me certificar se o motorista, sozinho no carro, possuía ou não algum tipo de deficiência.

Enquanto eu seguia em direção à porta do mercado, o sujeito abriu a porta do carro, saiu, olhou por cima do ombro, na direção do guarda do mercado e, só então, fechou a porta e ligou o alarme. Aquele olhar de cumplicidade, seguido por um ar de impunidade, comprovou as minhas suspeitas: era mais um dos irresponsáveis, que provavelmente se diria com pressa ou desligado - quando todos sabem que o diagnóstico é o descaso.

As pessoas que entravam e saiam até chegaram a lançar alguns olhares de reprovação, tanto para ele quanto para o guarda do mercado, mas este, com medo de envolver-se em qualquer confusão e acabar por perder o emprego, fingiu-se de desentendido. Eu fiz o mesmo, olhei para ele e para o guarda, na esperança de que alguém tomasse uma atitude.

Vieram-me à cabeça todas as minhas omissões em situações similares, além de todos os olhares de cumplicidade e esboços de sorriso pela impunidade. Senti-me realmente um cúmplice daquelas atitudes, aceitando-as mudo - cego e surdo; Eu e todos os outros éramos incapazes de protestar.

Foi então que decidi que dessa vez não, eu não ia deixar passar em branco. Antes de abordar o sujeito, cheguei à conclusão de que ele também tinha uma deficiência; Após cutucá-lo pelas costas, avisei:

- Moço, essa vaga não é reservada para quem possuiu apenas deficiência de caráter.

As palmas evitaram uma reação agressiva. Quanto ao constrangimento, que o levou a entrar no carro e partir meio sem rumo, espero que tenha sido a melhor forma de reabilitação.







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: 9º Prêmio Paulo Setúbal - 2011
Organização: Secretaria Municipal de Cultura - Tatuí - SP
Classificação: Menção honrosa

RELENTO (Poesia de Rodrigo Domit)

Na janela embaçada

o coração, riscado a dedo

derreteu aquele gelo







Autor: Rodrigo Domit
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Concurso: 20º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - 2011
Organização: Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS
Classificação: Seleção para publicação

COLCHA DE RETALHOS (Livro de Contos de Rodrigo Domit)

Apresentação:


O livro reúne setenta e três textos curtos e, apesar da predominância maciça dos contos, escapa em alguns momentos para a poesia e para a crônica. Assim como uma colcha de retalhos, a obra apresenta-se como um emaranhado heterogêneo; No entanto, ao aproximá-la da vista, torna-se possível notar as costuras e amarras entre temas, estilos, linguagem e ritmos.
A obra conta com projeto gráfico da ilustradora Laís Brevilheri e não tem prefácio, orelhas ou sumário. Desse modo, o leitor pode sentir-se livre para percorrer os caminhos traçados pelo escritor ou para percorrer suas próprias linhas e costuras.

"Quando menina, meus sonhos eram aquecidos por uma velha colcha de retalhos. Hoje, mulher feita, é essa colcha de palavras costuradas pelo Rodrigo que me emociona."
HENRIETTE EFFENBERGER, escritora de Bragança Paulista - SP

"Narrativas que lembram em um instante do que é feita a boa literatura."
DANIEL RUSSELL RIBAS, editor e jornalista do Rio de Janeiro - RJ

"Um livro pequeno, abastecido de curtas composições, boas intenções e poesia pra mais de metro. O livro me fez lembrar a velha máxima “as melhores essências estão nos menores frascos”. Domit levou isto tão a sério que acabou criando um pequeno clássico, sim, pois abastado de aforismos, inversões, fantasia e, acredite, surrealismo."
ANGELO PESSOA, escritor e professor de Cordeiro - RJ


e-Book:
http://e-bookcolchaderetalhos.blogspot.com.br/


Site do livro:
http://livrocolchaderetalhos.blogspot.com/







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
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Concurso: Prêmio SESC de Literatura - 2008
Organização: SESC - Nacional
Classificação: Finalista

Concurso: Prêmio Utopia de Literatura - 2010
Organização: Utopia Editora
Classificação: 1º Lugar

Concurso: Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores - 2012
Organização: UBE-RJ
Classificação: 3º Lugar