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QUARTO SEM SOMBRA (Poesia de Isabel Furini)

Esquecido do mundo, Van Gogh pinta.

Seus quadros são cartografia de subterrâneos traumas

tatuados no corpo e nas mãos.



O eu instintivo

(adolescente)

extravasa emoções,

extasia-se nas cores dos trigais,

no voo dos corvos,

nas expressões dos rostos operários,

nas luzes de Arles.



Pinta em um ritmo alucinante,

pinceladas justapostas ganham vida.

Obsessivamente

retrata seu quarto com movimentos compulsivos.

Seu quarto não tem sombras,

ignora-as,

(elas o aterrorizam com suas histórias).



Mas as sombras

tentam entrar pela janela entreaberta.

Espreitam

(invisíveis)

desde as paredes do quarto do quadro do artista.



A loucura perambula pela casa amarela.







Autora: Isabel Furini
Contato: isabelfurini@hotmail.com
Blog: https://isabelfurini.blogspot.com

Concurso: Concurso Literário O Pensador IV – Lindolf Bell - 2010
Organização: Academia Itapemense de Letras - SC
Classificação: 1º Lugar

BODAS DE SALGUEIRO – CONTOS DA GERAÇÃO DE CONCRETO (Livro de Contos de Vitor Luiz Leite)




A geração de Concreto.
O tempo morreu de fome!
Os sonhos engordaram, sob a parede que ruía.
O céu choveu fogo e cinzas.
Mas nós… nós sorrimos e cantamos; por mais um dia.
se tudo fosse feito de um doce e açucarado
se a onda no mar fosse verde, esperançado
se o vermelho das bandeiras não fosse de sangue derramado
O mestre; missão.
A juventude; de marfim e ilusão.
A pureza morta no corredor confuso.
Os erros que ventam nas valetas além pulso.
[Ó pureza perdida, entre páginas de livros velhos e mofados]
A sujeira; cama bagunçada.
A infâmia; o demônio na garrafa.
O acerto de contas com o moribundo.
A homeopática destruição do mundo.
Macacos dançarinos
feitos de concreto são
Não pela força de paladinos
mas por serem filhos do clarão
[Dancem!
Dancem!
Comemorem!]
É a festa em que o barqueiro ébrio
aguarda sentado no canto
o primeiro sóbrio ronco
do bom menino mais sério
Breve século de pólvora e carvão.
Eram os extremos, anfitriões da escravidão.
O homem e o abismo.
O medo e o pessimismo.



Página do livro no Facebook
https://www.facebook.com/Bodas-de-Salgueiro-Contos-da-Gera%C3%A7%C3%A3o-de-Concreto-1385547455091237







Autor: Vitor Luiz Bento Leite (Pseudônimo: Miguel Aticiel)
Contato: vitor.educ@gmail.com

Concurso: Concurso Literário AFEIGRAF - 2016
Organização: AFEIGRAF
Classificação: 1º Lugar na Categoria Contos

CAPITOLIUM (Conto de Cristina Bresser)

tropeço num paralelepípedo. me deparo com um livro aberto, estatelado no chão. volume ensebado, orelhas retorcidas. apanho o livro e sou surpreendida por dois olhos injetados a me encarar.
assustada, solto um quem é você?
maria capitolina!
sento no chão e agarrando o livro escancarado, murmuro: continua, por favor.
nasci calma e delicada e fui presenteada com este nome. minha mãe deve ter tido dores de parto excruciantes para se vingar de mim desse jeito. ou terá sido ideia do meu pai? complexo de gente pobre que na falta de um “pedigree” adequado, compensa seus rebentos com nomes esdrúxulos. ele dizia que era homenagem à loba que amamentou rôomulo e remo no capitolium. pouco importa, eu sempre detestei meu nome.
meu consolo era uma menina que morava na rua de trás. ela se chamava policena aquilina, coitada. heroína homérica, quem sabe? a irmã dela, favorita da mãe, chamava-se josephina. e olha que era família abastada, o pai era juiz de direito. já eu...ela se tornou poli, a menina mais corajosa e contestadora do bairro. soube depois que tinha se formado em medicina. a irmã virou a “madrinha fina”, tia solteirona que mimava os afilhados com seu parco salário de funcionária pública.
eu fui desde sempre tímida e discreta. julgada por alguns como cínica e dissimulada. tornei-me capitu, dos olhos de ressaca. não lembro como adquiri este “sobrenome”, mas quem me apelidou me conhece. intimamente.
ressaca, sim, daquelas bravas do mar. violenta e ensurdecedora. ondas enormes quebrando-se contra as muretas da praia, carregando o que encontra pela frente, invadindo a terra, limpando, transformando e destruindo tudo aquilo que não tem base sólida. esta sou eu. a ressaca por detrás dos meus olhos só é percebida por poucos privilegiados. estes conhecem minha alma. será que alguém sabe como me sinto?
quando foi que bentinho deixou de ser meu melhor amigo, companheiro inseparável, para se tornar este marido ciumento e desconfiado? um homem cinza, assim o vejo atualmente. espectro amargo, quase um casmurro!
não me recordo o dia exato que acordei ao lado deste estranho numa cama fria, num quarto escuro numa casa que há muito deixara de ser um lar. quem sabe bento santiago teria sido menos infeliz na vida monástica, como dona glória havia prometido quando lhe deu à luz. toda esta tragédia é no fundo culpa dela.
sogras! tentar enganar à deus? se ela tivesse cumprido a promessa à risca, quem sabe nossas histórias teriam sido menos desastrosas.
hoje talvez eu fosse casada com escobar. se o destino fosse menos sarcástico, envelheceríamos juntos. ele continuaria nadando em mares agitados como sempre lhe aprouvera. e eu não teria essa alcunha sombria. hoje faço jus a ela. ressaca, sim! mas agora é de “rave”, de balada, de pó e de vodca!
talvez não tivesse me casado de forma nenhuma. há pouco tempo descobri que vivo muito bem em minha própria companhia. capitu santiago (mantive o sobrenome só para infernizá-los mais um pouco). ubíqua. blogueira internacional, expert em tendências da moda. quem diria. meu modo de vida é um tapa na cara daquela família.
se eu tivesse escolhido o celibato, teria me poupado de tanta discórdia, dor, julgamentos precipitados. e da amargura que veio junto com tudo isso. às vezes nem com whisky e prozac me livro de toda aflição.
agora me exilam. culparam-me e fui silenciosamente condenada por algo que nunca terão coragem de provar. ezequiel, filho amado. por ele suportei a angústia de um casamento sem paixão, há muito sem tesão. por ele valeu continuar a viver. e calar.
jamais imaginaria que bentinho pudesse ter sido tão vil. covardia descontar suas frustrações num inocente. por toda a eternidade vou culpá-lo por nossas infelicidades. pulha! perdão para ele é fora de cogitação, nessa e nas próximas vidas, se existirem de fato. meu filho não se tornou um homem feliz e seguro por conta da maldade do pai.
ouvi dizer que bentinho está construindo uma morada tal qual à da sua infância na rua de matacavalos. e que pensa escrever suas memórias. quem iria lê-las? quanta soberbia!
desejo-lhe uma vida longa e circunspecta, doutor bento de albuquerque santiago. não preciso desejar-lhe uma velhice infeliz. disso já me certifiquei!
quanto à mim, não consigo me imaginar envelhecendo. prefiro sair dessa festa enquanto ainda estiver bombando. nada de esperar fica monótona, cheia de bêbados inconvenientes ou “junkies” curtindo uma rebordosa, jogados pelos cantos.
não nasci para me tornar a avozinha afável que se realiza limpando ranho de narizes congestionados. ou batendo bolos e mais bolos até ficar com os braços flácidos para saciar as lombrigas dos fedelhos. papel escrito sob encomenda para a doce sancha.
prefiro viver intensamente. tentar ser feliz apesar de tudo e para desgosto de alguns. meu maior prazer é ser notícia na mídia e causar um enorme desconforto à toda família santiago. O que eles chamaram de exílio, para mim é liberdade, ainda que tardia!
soube que me apelidaram de amy winehouse. fiquei lisonjeada, confesso. mas a mim ninguém vai enviar para “rehab”! não há o que mais lhes contrarie do que a vida que levo no desterro. aqui sou dona e senhora da minha casa, meus atos e meu destino. e são eles que pagam pela minha autonomia. e pelo meu silêncio.
esses tempos fui comparada à uma rosa. gostei. com meu perfume, posso oferecer uma viagem “ecstasiante”. ou sofrimento profundo, com meus pontiagudos espinhos. a escolha vai ser sempre minha, claro. aroma ou dor. ofereço ambos simultaneamente, se assim me aprouver. dona das minhas escolhas, também.
batizada em homenagem a uma loba? nome mais adequado meus pais não poderiam ter-me dado, que ironia! loba que defende sua cria à custa da própria vida, se preciso for. fêmea alfa que desgarrada da sua alcateia, uiva de desejo no cio. lobos machos são monogâmicos por opção, para não perderem suas parceiras. as fêmeas dominantes, será que também o são?
talvez um dia eu mande às favas minha discrição. dou uma de louca e provo que não são apenas meus olhos de ressaca. meu corpo todo é tormenta, minha mente é trovão e minha alma, ah, essa é puro maremoto!
ezequiel, meu filho amado! um dia, quem sabe...
os olhos de capitu se cerram, sua imagem se esvai.
fecho o livro: sigo em frente!







Autora: Cristina Bresser
Contato: cris@cristinabresser.com.br

Concurso: I Concurso Literário do Núcleo Interdisciplinar em Direito e Literatura - 2016
Organização: Núcleo Interdisciplinar em Direito e Literatura - NIDIL
Classificação:1º lugar, na categoria Contos e Crônicas

METADE DOUTRA SOMBRA (Poema de Nijair Araújo Pinto)

Como jovem sombra, surgida da repetida nova era,

Derrotada pela desilusão da triste e sufocante quimera,

Odeio vivenciar toda a maldade das torpes militâncias.

O clamor da vida, o sofrimento do povo, o medo...

Estão claramente expostos, não há nenhum segredo:

A vida ainda é vintém e o sofrimento causa repugnância.



A desconstrução da realidade quase me desequilibra.

É na dor da lágrima, um plágio do azul da doce hidra,

Que busco a razão solene dos gritos inglórios meus.

Ah! Sei que existem mares verdes, de águas revoltas,

Onde a vida se faz plena e a pena voa leve e solta,

Perseverando, no âmago sofrido, a luz alheia ao breu.



Preso ao chão, refém e prisioneiro do cinzento concreto,

Desconheço a paz vazia de sentido e todo o circunspecto

Da antonímia de viver alheio ao sabor da liberdade plena.

Estou livre dentro de carcaças que se movem presas entre si.

Busco, na solidão do grito, um estar sempre perto, longe de ti.

E me eternizo quando choro, no esvair-se da lágrima em cena.



Sou homem da paz, incrustrado num mundo de armas

Que me aprisionam, involuntariamente, impondo-me amarras.

Se as guerras necessitam de mim e de todos os indefesos;

Se lutamos, embora nossa causa não esteja em discussão.

É a partir das lutas, de todas elas, que saímos da opressão.

Afinal, odiamos servir de bucha e descartáveis contrapesos.



Minha garganta está ressequida pelo tempo de espera vã.

Essas lutas, de priscas eras, de outros povos e longínquos clãs,

Não são minhas – nem poderiam ser! –, mas me maltratam.

Porque me dói no peito a dor alheia que me desferem,

Ocultando, em gotas diminutas, a monstruosidade do que querem.

Minha pele sofre e meus olhos lacrimejam o Sol que captam.



Do seu tempo até o meu, Augusto, há vários novos túmulos!

Também houve novas melodias de pesadas nuvens cúmulos.

E a vida, entre o calor e o frio; entre o Sol e a Lua e as nuvens,

Ressurge a cada nova aurora, sem nada nos perguntar a nós!

Se estamos em grupos, gregários, ou se estaremos a sós,

O importante é que estejamos bem, reluzentes, cheios de lúmens!



Ah, querido Augusto, como ainda existem as plebeias!

As desilusões da cama, quando pulsam as sedentas artérias,

Não se tornaram inférteis – apesar da evolução humana.

Os corpos ainda se buscam e agora, de modo mais profano,

Multidões de acéfalos se destemperam nesse mundo insano,

Caçando o prazer alhures, movidos pela maldita trama!



Tentei quebrar as fragilizadas normas, como outrora fizeste.

Descobri-me dissonante e me chamaram de tolo e de cafajeste!

Passageira é a vida – os homens, pilotamos sem rumo.

E os vagões, coordenados e iluminados pela luz que emana,

Esboçam, nas curvas, novos rumos... Mas o povo clama,

Exigindo que o maldito condutor mantenha o prumo!



Que me achem e me joguem o corpo fora, como peste!

Nasci em paragens quentes, mórbidas, no sertão do agreste,

Ruminando o pão de cada dia feito o cão da gota serena!

Meu tormento não é cíclico – é recalcitrante – e lamento,

Apesar da felicidade interior, estampada no firmamento,

Não poder sentir, antes da morte, o sabor da virgem Açucena.



Meu estrangulamento não me aperta o grito.

O que me aflige é o inútil soberano árbitro sem apito,

Repetindo máscaras diante de conflitos vários.

As questões são únicas, de atores aparentemente parecidos;

os critérios diferem entre os “senhores” e os desvalidos.

No mar das aparências, existem mudos, cárceres e aquários.



O gozo apraz somente um dos elos,

Fulminando o outro com batidas de martelo.

Quiromancia, adivinhações feitas ao léu,

Revelando o óbvio que pulula, ululante,

Deixam o povo a ver navios inconstantes

Que singram os mares aos olhos do céu.



Somos o ressurgir de ossos reciclados.

O resultado posterior de corpos enlaçados...

Movimentados pela razão do alimento,

Desvendando os segredos que escondem as vísceras,

Justificamos os desejos e, nas multíparas,

Confirmamos o porquê dos sofrimentos.



É o caos quem nos desarruma, criando a entropia.

Mas isso vem de longe, desde a Antuérpia!

Se os homens que nasceram e se foram,

Brincando de viventes, se tais seres moribundos,

Abriram caminhos para novos, d’além-oriundos,

Não sentem, depois dos Séculos, os que choram!



Há banquete para um povo delirante!

Guiando a manada, toca-se o berrante...

Do gado morto e da carne que se estraga e apodrece,

Os convivas, embriagados, de nada desconfiam.

Afinal, existe fartura e, do banquete que apreciam,

Surge o torpor da festa tramada pela falsa prece.



Será que existiriam vidas loucas, loucos?

Tudo se perderia diante dos destroços.

Nenhum coágulo se forma sem vida prévia.

De que serviriam as preces, todas as vigílias,

Quando dentro de nós há vazios sem mobílias?

Meu sonho é o de Ícaro, voando para a Grécia!



Perdeu-se a ribalta do sequioso sátiro.

Esquecido, mortificou-se na solidão do átrio,

Onde a plateia, silenciosa, nada aplaudiu.

Ao contrário, revoltada, sentindo-se ultrajada,

Fitava o também silente homem em disparada,

Implorando por glorioso espetáculo que não viu.



Cálidas canções construíram o cáften!

Uma a uma, elas se ajuntaram no harém.

Ao sabor das melodias, transpirando em gemidos,

Damas esbeltas de corpos soltos, no espelho,

Refletiam desejosas vozes: de homens e pentelhos.

Chegou a Polícia! Todos correram – houve alaridos.



Soltas, na ausência de provas e entregues as penhoras,

As inocentes esbanjavam argúcia – pobres senhoras!

Vítimas da luxúria de sedentos homens que atacam,

Buscando o prazer das noviças, de carnes nuas,

Vendiam-se ao sabor do tempo, fugindo do frio das ruas.

Na realidade, doam-se pelo vintém por que clamam.



Não busco provar nada, posto que somos falíveis.

Quais, portanto, seriam nossas razões críveis,

Com as quais deitamos corpos inocentes por pagamento?

Se a razão está na beleza, na contraprestação estética,

Que rufem os tambores e que se cumpra a arma profética

Do pecado, do temor e do arrebatamento.



Há turbilhões que me execram – busco a solidão.

E do meu grito, espaçado, surge o furor do trovão.

Meu corpo apresenta espasmos. Da aorta,

Excitada pela revolta de todo silenciar pecaminoso,

Reverbera o som do meu brado estrondoso,

Denunciando os infindos ciclos da sombra morta!







Autor: Nijair Araújo Pinto
Contato: nijair@hotmail.com
Blog: http://www.recantodasletras.com.br/autores/Nijair

Concurso: 21º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos - 2012
Organização: ALLA – Academia Leopoldinense de Letras e Artes
Classificação: 1º colocado

BISTRÔ (Poema de Ronaldo Henrique Barbosa Junior)

Não se passava
                   a qualquer momento ali.

              Aquela rua era
                              escura
                        como o negro véu
                                que cobre
                    a madrugada aluada;
                             as casas eram
                                     todas do
                            século passado,
              com tijolos quebradiços
              e uma penumbra de tinta
              cobrindo algumas paredes
                           rachadas.

                    Aquela porta
                          de madeira amarga,
                    que protegia uma casa
                              humilde,
                            era aberta à tarde
                            por Alícia,
                                  moça jovem
                                   de olhos tristes.

                     Havia duas mesas
                                     antiquadas e
                                     descombinadas
                      com banquetas quebradas.

                       As tardes de frio eram
                                 inspiradoras,
                           mas a voz do vento
                                 era a única que
                                           se ouvia
                             tocando as nuvens
                                  bastante
                                      nubladas.

                           O vazio
                               daquela rua
                                    traduzia
                             o que as gotas
                                  espelhadas
                                              do céu
                                              diziam
                                                  à moça
                                  de lenço nas mãos
                                  e chuva nos olhos.

                          Cantar era uma
                               paixão
                                   bem
                                   guardada no peito,
                               que irradiava nas
                                     lágrimas
                                       pelo amor
                                      distante.

                            Seus filhos
                                   não mais
                                   tinham pai.

                       Os olhos dela
                                    brilhavam
                                    a cada vez
                                    que recebia
                                    notícias de seu
                                                amado;
                   as crianças frequentemente
                       cantavam a saudade em
                                           perguntas
                                           insaciáveis
                             de onde o pai estava.

                   Ele estava longe,
                            honrando a bandeira azul,
                                                         branca,
                                                         vermelha.
                                          Estava sendo a
                                          pátria inteira.

                  Quando sol,
                           fazia escuro
                                naquela
                                       rua
                                    negra.

           A cada semana,
                   a moça saía a
                      fazer compras
                      no outro bairro,
                      voltando com sacolas
                      de alguns ingredientes
                      para servir tira-gostos aos
                                            clientes
                                          escassos.

              Todavia,
                 as compras ela fazia
                      às quartas-feiras,
                      não às
                               QUINTAS.

                Por isso,
                      ao caminho,
                      encontrou
                      uma fachada
                                      muralizada,
              com alguns papéis rasgados,
                                    que diziam:

                       "GRAND SPECTACLE:
            Mardi, Théâtre des Champs-Élysées"

          mas os tempos eram outros,
                    e a guerra não
                         trazia
                         espetáculos,
                       porém,
                         como nunca vira,
                       naquela fachada,
                       uma porta
                            aberta
                          avistou:
                             vozes líricas
                             ouviu
                     como ouvia
                             pássaros a
                                    cantar.

               A moça Alícia entrou,
                               recatada,
                     bateu palmas e,
                              quando se viu,
                      estava cercada
                    de mulheres observando-a,
                              vestidas sem
                              grande luxo,
                              mas
                                  soberbas.

                      Um homem
                               sentado
                               se levantou
                            para ver quem
                                  chegava.

                 Ela queria apenas
                                   ouvir
                                   o ensaio.

                        Indagou o
                              homem
                                o que
                                   ela queria
                          e ouviu um sussurro
                              doce de vergonha,
                              consentiu
                              a presença e silenciou
                              em sua cadeira cansada.

                   Não quis ela sair
                                de si mesma,
                                       sensata,
                      conhecendo-se
                      como uma
                              qualquer,
                      como ninguém
                      a conhecia.

              As vozes
                  encantavam
                  em seus timbres,
                       ilustrando
                       a melodia
                do violino
                    que extravasava
                       a arte poética
                       em suas cordas.

              O balé ensaiava
                        cada passo
                        trazido por
                        cada peça
                        do enredo
                            da ópera,
            e Alícia
                 pensava consigo
                 o quão incrível
                 era a
                      arte,
                 emocionada,
                       com
                       a alma na mão,
                           sentimental.

                   Ao fim,
                      pôs-se a
                         sair
                         sem que
                      fosse
                    notada
                    e
                    foi
                    fazer as
                    compras para
                    semanar
                    na sala
                    de sua casa,
                    servindo
                    ao ínfimo
                    público
                    que,
                    às vezes,
                    aparecia.

               Não muito longe,
               as bombas
                    ilustravam
                 o cenário de caos,
                     e a
          Militärverwaltung in Frankreich
                         enegrecia
                            a França
                               numa nuvem
                                      Nazista.

              Então,
              tragicamente,
                  a vontade
                  surgiu,
                e Alícia voltou
                ao ensaio
                    na quinta
                       seguinte,
                       quando
                       o homem
                        sentado
                        indagou
                          se ela
                          sabia
                         cantar.

                   Indo ao
                     centro da sala,
                     com postura imponente,
                            olhos ao chão
                         e coração debulhado,
                            lançou sua alma
                             aos tímpanos
                                   absortos
                             que se faziam
                                 presentes.

                  Seu registro
                       era soprano,
                  sua magia,
                        o sentimento.

               A saudade
                  era a melodia
             que embalava
               seu cântico,
                e a guerra
                   era o caos
                 que trazia em
                   sua mente.

               Alguns presentes
                    choraram ao
                       ouvi-la e
                       a
                       aplaudiram
                         como se
                        ali estivesse
                      uma cantora
                        mundialmente
                               famosa.

                   Alícia
                       segurou seu
                             coração,
                            baixou os
                                  olhos
                            e andou
                            até o canto
                    de onde saíra,
                        ainda ouvindo
                               aplausos
                               contundentes,
                               logo
                              buscou a saída,
                               envergonhada,
                           para voltar à sua
                                   residência,
                            mas o homem
                              a chamou
                                 e quis
                                    conversar:
                                    ela era
                                      fabulosa.

                        Mas como poderia
                              cantar
                              sabendo
                                   onde
                                      seu marido
                                    estava e
                   que sofrendo
                         poderia estar?

             A negra cruz gamada,
                      Svastika,
                      exalava o poder
                       medonho
                     dos alemães
                     em terras francesas,
                        mas o brilho
                               nas retinas
                                    sofridas
                                    da moça
                               irradiava
                               sua insegura
                                      paixão
                                      pela arte.

                           Poderia cantar
                                e emocionar,
                         mas jamais
                                doaria sua alma
                                    por completo:
                            ela estava
                            entrincheirada
                            a uma certa distância dali,
                            sendo bombardeada
                                         noite
                                              e dia.

                Mas
                  o valor oferecido
                    gerava o desespero
                    de sua necessidade:
                    os negócios da
                    família não
                    se sustentavam.

            Assim, nasceu a
                      Arte
                      Aliciana.

                      Todas as semanas,
                               comparecia
                              aos ensaios
                              e encantava
                              as almas que
                              se calavam para
                                     ouvi-la.

                      As crianças se cuidavam
                           com a avó,
                           e os passos de Alícia
                           sumiam na multidão
                              dos artistas.

                      A apresentação
                         estava marcada:
                         mas Alícia não
                         se fazia
                                 preparada,
                         pois ainda não
                         libertara
                         sua alma
                               taciturna
                         de seu peito
                             longínquo.

                    No camarim,
                         seu suor
                         manchava a
                         maquiagem
                         e suas cordas
                                   vocais
                         quebravam as
                              barreiras
                               sonoras.

                       A noite era sua:
                              os brilhos,
                              os olhares,
                              os aplausos,
                              os sentimentos.

                       O cabaré
                          a esperava em
                                     furor.

                           Entrou em cena,
                           controlou o respirar
                           e se debulhou em
                                sensibilidade.

                     O público estava ali,
                               latentemente
                                       vibrante,
                   como se apreciassem
                         uma obra de arte
                                  erudita
                         tomar
                            magnificamente
                            sua forma.

                     Mas o vazio em seu peito
                            a fazia pobre
                             em seu pensar.

                   Não poderia mais
                         cantar
                    daquele jeito.

                      O financiador
                      da noite não se conteve,
                                incisivo:
                       "Aquelas pessoas
                           haverão de retornar
                        para receberem a tua arte,
                                  e tu tens de estar
                                  conosco para oferecê-la.
                              Já és uma
                                    estrela!"

                         Todavia,
                         repentinamente,
                                    Alícia,
                                       tão moça,
                                       tornou-se
                                                uma
                                  inconsolável
                                                   viúva.

                  Seus prantos eram
                               ainda mais
                                frequentes,
                                e sua alma
                 tornara-se um vidro
                               estilhaçado,
                                   lançando
                                  cacos aos
                                        ouvidos
                                        nus.

                    Não se ouvia
                            soprano
                            mais
                            melancólico.

                            Não havia corpo,
                                    Jean morrera
                                           numa
                                       trincheira,
                                  desfalecendo em
                                        putrefata
                                          solidão.

                            Havia alma.
                                     Imortal
                                     na absoluta
                                     imensidão.

                   Alícia pisou
                   novamente no palco,
                   tudo era noite:
                              sem brilhos,
                              sem olhares,
                              sem aplausos,
                          tantos sentimentos.

                     Com os olhos
                     tempestuosos,
                     cantou um pássaro
                     como nunca antes
                     cantara,
                          pois sabia que,
                                         ali,
                                seu amado estava
                                       apreciando a
                           libertação da primavera;
                           um arrepio a
                                  envolveu
                           como um abraço,
                                   e ela
                           sentiu o amor
                               que se fazia vivo,
                         manifesto na arte
                                            que
                                            calava o silêncio
                                            de cada peito,
                                             e a fazia cantar,
                                         mesmo buscando
                                                        o silêncio
                                                        de seu
                                                    interminável
                                                         luar.







Autor: Ronaldo Henrique Barbosa Junior
Contato: rhbj10@hotmail.com
Site: http://rhbj10.wix.com/rhbj

Concurso: II Concurso Literário Icoense Poeta José de Oliveira Neto
Organização: Festival da Cultura Icoense (Icozeiro) - Icó - CE
Classificação: 1º colocado na categoria Poesia