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QUARTO SEM SOMBRA (Poesia de Isabel Furini)

Esquecido do mundo, Van Gogh pinta.

Seus quadros são cartografia de subterrâneos traumas

tatuados no corpo e nas mãos.



O eu instintivo

(adolescente)

extravasa emoções,

extasia-se nas cores dos trigais,

no voo dos corvos,

nas expressões dos rostos operários,

nas luzes de Arles.



Pinta em um ritmo alucinante,

pinceladas justapostas ganham vida.

Obsessivamente

retrata seu quarto com movimentos compulsivos.

Seu quarto não tem sombras,

ignora-as,

(elas o aterrorizam com suas histórias).



Mas as sombras

tentam entrar pela janela entreaberta.

Espreitam

(invisíveis)

desde as paredes do quarto do quadro do artista.



A loucura perambula pela casa amarela.







Autora: Isabel Furini
Contato: isabelfurini@hotmail.com
Blog: https://isabelfurini.blogspot.com

Concurso: Concurso Literário O Pensador IV – Lindolf Bell - 2010
Organização: Academia Itapemense de Letras - SC
Classificação: 1º Lugar

MEMÓRIA DA PEDRA (Romance de Mauricio Lyrio)


Desde a juventude, Eduardo investiga a “fenda que partiu sua vida ao meio” — um acidente no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1960, que envolveu seus pais. Suicídio ou fatalidade? A resposta pode estar nos conhecimentos de um médico, ou nas lembranças escondidas da família numa casa em Teresópolis. Ou talvez o caminho seja outro, o da redenção, na possibilidade de reconstituir uma vida fraturada — o amor por Laura, a relação paternal com o menino Romário, o fascínio pela personalidade de Marina, uma mulher no limite. Tudo o que for preciso — e possível — para deixar de ouvir apenas “a mudez na face escura da montanha”.


Links para compra:
FNAC / Saraiva / Livraria da Folha / Livraria da Travessa







Autor: Mauricio Lyrio
Contato: caixadeliteratura@gmail.com
Blog: http://caixadeliteratura.blogspot.com

Concurso: Prêmio SESC de Literatura - 2010
Organização: SESC Nacional
Classificação: Menção honrosa - Categoria Romance

COLCHA DE RETALHOS (Livro de Contos de Rodrigo Domit)

Apresentação:


O livro reúne setenta e três textos curtos e, apesar da predominância maciça dos contos, escapa em alguns momentos para a poesia e para a crônica. Assim como uma colcha de retalhos, a obra apresenta-se como um emaranhado heterogêneo; No entanto, ao aproximá-la da vista, torna-se possível notar as costuras e amarras entre temas, estilos, linguagem e ritmos.
A obra conta com projeto gráfico da ilustradora Laís Brevilheri e não tem prefácio, orelhas ou sumário. Desse modo, o leitor pode sentir-se livre para percorrer os caminhos traçados pelo escritor ou para percorrer suas próprias linhas e costuras.

"Quando menina, meus sonhos eram aquecidos por uma velha colcha de retalhos. Hoje, mulher feita, é essa colcha de palavras costuradas pelo Rodrigo que me emociona."
HENRIETTE EFFENBERGER, escritora de Bragança Paulista - SP

"Narrativas que lembram em um instante do que é feita a boa literatura."
DANIEL RUSSELL RIBAS, editor e jornalista do Rio de Janeiro - RJ

"Um livro pequeno, abastecido de curtas composições, boas intenções e poesia pra mais de metro. O livro me fez lembrar a velha máxima “as melhores essências estão nos menores frascos”. Domit levou isto tão a sério que acabou criando um pequeno clássico, sim, pois abastado de aforismos, inversões, fantasia e, acredite, surrealismo."
ANGELO PESSOA, escritor e professor de Cordeiro - RJ


e-Book:
http://e-bookcolchaderetalhos.blogspot.com.br/


Site do livro:
http://livrocolchaderetalhos.blogspot.com/







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com

Concurso: Prêmio SESC de Literatura - 2008
Organização: SESC - Nacional
Classificação: Finalista

Concurso: Prêmio Utopia de Literatura - 2010
Organização: Utopia Editora
Classificação: 1º Lugar

Concurso: Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores - 2012
Organização: UBE-RJ
Classificação: 3º Lugar

CÁRCERE PRIVADO (Poesia de Rodrigo Domit)

Sobre a calçada
fumegam os resquícios
de um colchão incendiado

Em volta,
dezenas de curiosos
observam as contorções
das chamas que ainda resistem


Ao avistar de longe esta cena,
encho-me de esperança:

finalmente rebelaram-se
os prisioneiros da rotina








Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com

Concurso: II Prêmio de Poesias do NACPAR - 2010
Organização: Núcleo Artístico Cultural Professor Áureo Ramos - Rio de Janeiro - RJ
Classificação: Finalista

NOVELO (Poesia de Rodrigo Domit)

Puxei o fio da meada

assim, como quem não quer nada


Não me custa tentar desatar

ver se rende conversa fiada







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com

Concurso: 19º Concurso Poemas nos Ônibus e nos Trens - 2010
Organização: Secretaria Municipal de Cultura - Porto Alegre - RS
Classificação: Seleção para publicação

O BICHO (Conto de Edgar Borges)

- Bicho, mamãe!

Não, não! Sou eu! Olha com cuidado, filho. Não assusta a tua mãe. Querida, chega mais perto, por favor! Sei lá o que está acontecendo, caramba! Acordei desse jeito, pequenininho, parecendo um inseto, mas sou eu...

- Sai, bicho nojento, sai!

Para com isso, amor! Não consegue me ouvir? Tô gritando feito louco aqui. Porra, tu já viu bicho em formato de homem? É mais fácil homem parecer inseto, né? Lembra do Kafka?

- Arg, que nojo!

Oh, amor, fala assim não. Fica calma, tudo vai se arrumar. Posso não saber por que estou assim, se por bruxaria ou castigo divino, mas sei que voltarei ao normal e vamos acabar tranquilamente a conversa que tivemos ontem e arrumar o nosso relacionamento. Sim, sei que fui embora no meio da conversa, feito doido, e voltei depois sem que ninguém visse. Depois disso, apagou tudo de minha cabeça. Só lembro de acordar de manhã com você gritando…

- Sai, bicho asqueroso. Deixa a cama!

Amor, para com isso. Olha direito. Sou eu, o homem que você ama, ou amava, não sei. Já fiz tanta burrada que até entenderia, mas enfim, olha direito. Opa. Não olha tão feio assim, não. Sai, não chega tão perto com essa sandália. Afasta, amor, afasta. Tira essa sandália daí!

Plaft!

- Ai, que sujeira. O bicho tava cheio de sangue, filho. Agora vou ter que lavar os lençóis.







Autor: Edgar Borges
Contato: edgarjfborges@gmail.com
Blog: http://edgarb.blogspot.com

Concurso: Concurso SESC Roraima de Literatura - 2010
Organização: SESC - RR
Classificação: 2º lugar

NADJA (Poesia de Carlos Eduardo Marcos Bonfá)

Nada há
Que impeça
De,
Tentacularmente,
Vagar
Como sonho e esperança.
Porção móvel de esperança
Na espera
De,
Ao acaso (objetivo),
Encontrar
Uma mão de fogo na água
(Pois o fogo e a água
São a mesma coisa,
Mas o fogo e o ouro não).







Autor: Carlos Eduardo Marcos Bonfá
Contato: ce.bonfa@terra.com.br
Blog: http://carloseduardobonfa.blogspot.com

Concurso: III Prêmio Canon de Poesia - 2010
Organização: Canon do Brasil e Scortecci Editora
Classificação: Seleção para publicação

LIMINAR (Poesia de Edgar Borges)

Vamos, vamos, vamos
O tempo é curto e a distância é a longa.
Movimentem-se, movimentem-se
Já chegam e podem irritar-se
Que não nos vejam aqui.
Ninguém nos autorizou, lembrem-se.
Eles quem sabe o fizessem,
Mas hoje não será o nosso dia.
Adiem essa permanência, digam adeus,
Desconfortável adeus.
Os donos estão vindo e as nossas terras
Não são mais as que eram ontem.
Ficamos assim, ao alcance de suas decisões,
De suas mãos pesadas, de suas botas, de seu riso de escárnio.
Movimentem-se, vamos, vamos.
Ficar? Tem certeza?
Não, melhor não.
Estas terras não são mais nossas,
Seus donos alegam retorno, estorno, estorvo.
Somos estorvo, ocupantes impróprios
Nada para se preocupar.
Como disse, é melhor ir, é melhor.
Lá chegam à vista as primeiras botas raivosas
Desocupando o que estava bem ocupado.
Somos lembranças, somos passado.
O futuro a outros pretence.
A terra, como disse alguém,
A outros, justos ou não, pertence
E deles será a herança.
A nós?
Sem casa, sem caminho, sem nada
Que reste um pouco de resto, desocupação, invasão, fuga.
A nós, tomara, que sobre um pedaço de esperança
Em outra margem, em outro ponto distante.







Autor: Edgar Borges
Contato: edgarjfborges@gmail.com
Blog: http://edgarb.blogspot.com

Concurso: Concurso SESC Roraima de Literatura - 2010
Organização: SESC - RR
Classificação: 1º lugar

A NATUREZA NA SENSUALIDADE (Poesia de Regina Araujo)

Alguns acham que sou assim:
excessivamente sexualizada.
E isso causa um pouco de confusão.
É verdade, eu confesso de antemão,
que tem tesão demais em mim.
Só que nem sempre entendem direito
como funciona essa parada
e ficam achando que sou meio fora de eixo,
um tanto quanto desvairada.

O fato é que faço amor ao levar um caixote no mar,
com a onda me embolando
e na areia meu corpo esparramando,
quando já não sei mais quem sou eu
ou a praia ao luar.

Gozo com o céu
ao voar de asa delta sem qualquer véu.
Dou uma rapidinha com o lago
ao descer pela tirolesa num ato destrambelhado.
Deixo rolar uma relação de alta qualidade
ao me permitir ser levada nua
pela correnteza do rio na pequena cidade.

Me envolvo completamente com o vento
ao abrir os braços no alto da colina
e deixar meu corpo ao relento,
ser totalmente tocado, como uma messalina
por esse deslumbrante elemento.

Me deito com a relva
e passivamente me entrego ao sol,
que silencioso
penetra minhas entranhas como uma selva.
Flerto com as borboletas
e maliciosamente
acaricio as pétalas das flores
deslizando vagarosamente meus dedos
em seus aveludados pêlos.

Literalmente trepo nas árvores livres
com movimentos cautelosos e firmes.
Escorrego na grande pedra da cachoeira
atingindo o clímax de prazer
ao mergulhar na água, de brincadeira,
estritamente gelada, e reviver.
Ainda não transei na neve
nem conheço as geleiras.
Porém, não deixam de fazer parte,
essas companheiras,
do meu sonho mais perfeito e breve.

Você tem razão
meu Mestre de sonho e ilusão.
Transo com tudo que é possível.
Às vezes, até mesmo com um homem aprazível.
Principalmente quando me deixo simplesmente
por inteira, a dominar pelo seu fixo olhar.

Aí é simplesmente estrondoso estar com você.
O desejo descomunal de um mínimo instante-mudo
em que através dos seus olhos, embevecida,
eu gozo com o mundo.
O símbolo do amor mais puro
a tudo que chamamos impulso de vida.

Esse é meu sexo ardente,
meu jeito de amar cada dia
e de livre e abertamente,
viver cada instante
refletido no espelho incessante
da nossa concreta poesia.

E se na finitude rápida do meu fogo-vida
não houver tempo de a neve experimentar
nem derreter a geleira, a mim bastará
ter sido por um breve momento da arte
desnudada em seu mais profundo olhar.







Autora: Regina Araujo
Contato: regina.araujo.escritora@oi.com.br
Blog: http://muraldosescritores.ning.com/profile/ReginaAraujo

Concurso: Poesias à Flor da Pele - 2012
Organização: Geração Editorial
Classificação: 3º Lugar

Concurso: XXIX Concurso Literário da UNISO - 2010
Organização: Universidade de Sorocaba - SP
Classificação: Finalista (com o título Sensualidade aflorada)

CURIOSA (Poesia de Rodrigo Domit)

Durante todo o outono

folheava displicente

todas as ruas do bairro







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com

Concurso: XIX Concurso Nacional de Poesias Helena Kolody - 2009
Organização: Secretaria de Estado da Cultura - PR
Classificação: Menção honrosa

Concurso: 1º Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - 2010
Organização: Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (FLIPORTO) - PE
Classificação: Seleção para publicação

Coletânea do XI Prêmio Escriba de Poesias

Apresentação:


A Prefeitura do Município de Piracicaba, através da Secretaria da Ação Cultural e da Biblioteca Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, realizou em 2010 o XI Prêmio Escriba de Poesias.

A coletânea é composta pelas seguintes obras e autores:


1º Lugar
POEMA EM PSEUDO-HAICAIS de Carla Ceres Oliveira Capeleti (Piracicaba-SP)

2º Lugar
PLANTIO de Luís Cunha Pimentel (Rio de Janeiro-RJ)

3º Lugar
AOS VOOS DE SETE PÁSSAROS de Paulo Sérgio de Carvalho e Silva (Niterói-RJ)

Menções Honrosas
UMA ANDORINHA de Cleber Bianchi (Taubaté-SP)
LÍNGUA MATERNA de Daniel Retamoso Palma (Santa Maria-RS)
O QUINTAL de Fabrício Pires Fortes (Curitiba-PR)
PARA JOÃO CABRAL de Joan Edesson de Oliveira (Sobral-CE)
RODÍZIO de Luiz Roberto Pienta (Limeira-SP)
A IRMÃ de Marcílio Benedito Caldas Costa (Belém-PA)
O ESPANTALHO de Reginaldo Costa de Albuquerque (Campo Grande-MS)

Selecionados para Publicação
DEPOIS DAS DUAS de Alexandre de Lima Sousa (Fortaleza-CE)
EMBORNAL de Ângelo Pessoa Martins (Cordeiro-RJ)
SOLUÇÃO de Carolina de Souza Leal (Niterói-RJ)
INTEMPESTIVO de Cristiano Marcos Pires Neto (Goiânia-GO)
LEMBRANÇA DE ANTES DO TEMPO de Fabrício Pires Fortes (Curitiba-PR)
VISITA BIBLIOTECAL de Geraldo Trombin (Americana-SP)
DESCALÇA de Henriette Effenberger (Bragança Paulista-SP)
SEGREDOS de Iara Maria Carvalho Medeiros dos Santos (Currais Novos-RN)
TRISTEZA DE VAN GOGH de Isabel Florinda Furini (Curitiba-PR)
O BEZERRO BITO de José Carlos Mendes Brandão (Bauru-SP)
CINE SANTA CRUZ de José Carlos Santos Peres (Avaré-SP)
POEMA PARA AMÉLIA de Júlia Parreira Zuza Andrade (Belo Horizonte-MG)
CRIADO-MUDO de Maria Amélia da Fonseca Costa (Rio de Janeiro-RJ)
DOCE CLARIDADE de Naira Pereira Santos Vaz (Piracicaba-SP)
PEQUENOS COLETORES DE PAPEL de Péricles Macedo Polegatto (Ribeirão Preto-SP)
SOMBRA de Rosana Silva (Cabo Frio-RJ)
HOJE ACORDEI ARTISTA de Rubens Cavalcanti da Silva (Santo André-SP)
RELÍQUIAS de Sérgio Bernardo (Nova Friburgo-RJ)
CINCO AGORAS DE SÍTIO de Wescley José da Gama (Currais Novos-RN)
BOLO DE FUBÁ (AUSÊNCIA) de Vasco Pereira de Oliveira (Sertãozinho-SP)


Link para o E-book:
http://biblioteca.piracicaba.sp.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/11/XI-Premio-Escriba-de-Poesias-2010-WEB.pdf







Concurso: XI Prêmio Escriba de Poesias - 2010
Organização: Prefeitura do Município de Piracicaba - SP

COM AS MÃOS CHEIAS DE CÉU (Livro Infantil de Lygia Boudoux)

Apresentação:


Layla e o gato siamês Virgilio fazem uma viagem através de três estágios, o carater de cada personagem depende da atmosfera do lugar onde ele se encontra. No último estágio Layla encontra uma Senhora que lhe apresenta uma rosa branca poética. Layla acorda no jardim de casa com a sua avó lhe chamando para cortar o bolo de aniversário. Mas, a vovó observa que há pétalas luminosas nas mãos de Layla e pergunta onde ela esteve. A menina responde que trouxe o céu nas suas mãos


A obra está a venda na Livraria Cultura







Autora: Lygia Boudoux

Concurso: Prêmio Elita Ferreira - Literatura Infantil - 2010
Organização: Academia Pernambucana de Letras - PE
Classificação: 1º Lugar

A RE(VOLTA) DE POLICARPO QUARESMA (Conto de Glauber Vieira Ferreira)

Pela ausência de grandes e heroicos personagens literários, eis que o velho Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, foi resgatado em carne e osso pela nossa egrégia Academia Brasileira de Letras, saindo de seu “triste fim” para quem sabe um novo recomeço.
Não foram divulgados detalhes sobre o episódio, mas presume-se que a ABL tenha tido a ajuda de um certo mago para trazer o clássico personagem de volta à baila.
Policarpo ressurgiu de manhã, já estranhando de início o que via em volta. Nada mais natural, pois Lima Barreto o colocara na cidade do Rio de Janeiro em fins do século 19.
Saindo com um grupo de escritores para passear pelas ruas do seu Rio, não gostou nada do que viu.
— Bando de gente maluca! Quase nos atropelam com essas carroças de metal e sem animais! Como os cocheiros as controlam?
Enquanto se dirigiam para um parque, lugar mais tranquilo para conversar, explicaram-lhe sobre o desenvolvimento automotivo no decorrer das últimas décadas.
— A cidade está mais desenvolvida, não acha?
— Eu diria mais barulhenta e desorganizada. — respondeu, já perdendo o humor.
— Caro Policarpo — continuou um jovem poeta, talentoso, mas carente de bom senso — és dos personagens mais patriotas que o Brasil já conheceu. Poucos estudaram nossa pátria com tanto amor e competência, não por acaso, tornou-se um clássico na literatura nacional. Por isso te chamamos, para, quem sabe, ministrar um workshop para novos personagens...
— Um o que?? — perguntou Policarpo, estranhando aquele dialeto.
— Uma palestra, um curso. — respondeu outro.
— Bem... sabeis que o Brasil sempre foi minha paixão. O respeito à sua natureza, a sua língua, a sua gente, sempre permearam minha conduta. Terei sim prazer em orientar as novas gerações de personagens. Mas, por ora, encontro-me faminto. Há alguma taberna próxima?
— Sim. — respondeu o jovem poeta —, mas hoje em dia chamam-se restaurantes; ou fast-food, como preferem outros.
— Fésti fud?? Que diabos é isto?
— É comida rápida, em inglês. O pessoal daqui acha elegante a língua de Shakespeare.
— De fato, tem suas belezas. Mas, se não me levaram a sério na proposta de se ensinar o tupi nas escolas, deveriam pelo menos preservar a língua de Camões, também encantadora.
Por fim, resolveram levá-lo numa lanchonete, lugar geralmente mais calmo na hora do almoço, já que Policarpo ainda estava visivelmente incomodado com a enorme quantidade de gente nas ruas. O jovem poeta deu a ideia: levar o velho personagem para lanchar em um shopping center.
Lá dentro, depois de passar em frente de lojas como Golden Joalheria, Kings Coffee e Woodstock CDs, chegaram a praça de alimentação.
Apresentaram ao ufanista Policarpo... O Mc Donalds...
— Róti dóg, xis burguer... Que diabos de comida é essa, senhores?
— Não se preocupe, Policarpo, o nome pode ser estranho, mas o lanche não é ruim.
— As sardinhas da Taberna do João me pareciam mais apetitosas. E pelo menos dava para saber o que estávamos comendo...
Enfim, lancharam todos e uma hora depois estavam de volta à rua. Retornaram para a sede da ABL, onde apresentaram Policarpo a um aparelho inexistente em sua época, a televisão. Nada melhor para mostrá-lo de modo mais dinâmico o que acontecia no país. Foi aí que tomou conhecimento das fraudes em licitações públicas, do desvio de dinheiro, dos votos comprados...
— Bando de néscios, malta de bandidos, quadrilha de pândegos!! A mão da Lei será pesada sobre seus cornos!
Acharam por bem não alertá-lo que a mão pesada dos egrégios tribunais do país tinha por hábito presentear os acusados – a maioria presa em flagrante, com a mão na cumbuca, como diriam os antigos – com providenciais Habeas Corpus...
— Que fazem com meu país, calhordas? — perguntou Policarpo, sem desgrudar os já úmidos olhos da tela.
A notícia seguinte dava conta do desmatamento da Amazônia, da poluição dos rios, e da suprema incompetência governamental não só em prevenir tais problemas, como também em punir os responsáveis.
Depois do intervalo, chegou a vez do caos na saúde pública, das escolas de lata...
— Calhordas, salteadores, biltres, abutres, sacripantas!!! — xingava Policarpo, quase batendo na televisão.
Deram-lhe um calmante a base de farinha que não surtiu efeito. Por fim, preferiram trancá-lo em uma sala, para que pudesse descansar um pouco. No início da noite, mais calmo, Policarpo informou:
— Amigos, agradeço a honra de me considerarem como modelo, como exemplo, mas prefiro retirar-me. Na verdade, caríssimos, não preciseis de personagens clássicos ou de heróis míticos; preciseis de homens de carne e osso, de bom senso, justos e preocupados com o próximo, que saibam dirigir o país com responsabilidade e serenidade.
E foi-se o velho Quaresma, quem sabe passar uma quarentena no consultório do seu estimado amigo Simão Bacamarte, o Alienista, de Machado de Assis. Precisava desabafar um pouco...



“Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo, sacrificando, e as cousas ficaram na mesma, a terra na mesma miséria, na mesma opressão, na mesma tristeza.”
Triste Fim de Policarpo Quaresma







Autor: Glauber Vieira Ferreira
Contato: glaubervieira2004@yahoo.com.br
Blog: http://prosaseviagens.blogspot.com

Concurso: VII Prêmio Barueri de Literatura - 2010
Organização: Secretaria de Cultura e Turismo de Barueri - SP
Classificação: 1º Lugar

DÉDALO (Poesia de Anna Amélia Apolinário de Almeida)

Absinto agridoce promíscuo,
Veneno derramado no coração da Noite
Teu amor é uma rosa partida
Pétala desfalecida do meu verso mais solferino

Os meus olhos estão cheios de gana
por ti, meu desejo embevecido,
a doçura bruta da lascívia,
rompendo silêncios de sinfonia do universo
caleidoscópio lírico, circo metafísico.

Que toda embriaguez seja enaltecida
condecorada no deleite da poesia
Faz-te meu amante, poeta, louco, libertino
Enquanto eu desfaço sonhos,
como quem fabrica estrelas
na vertigem da boemia.

Bendita serpente do Eden esquecido
solfejou um ardente soneto
Espalhando a semente
no outono da tua noite entediada
Lisergia de versos paixões & enigmas.

Deixa-me suspirar um gozo, entorpecida
como uma flor de cor escarlate perdida
No jardim da tua carne perfumada
orvalhada pelo meu feitiço
pervertido & pagão.

Permita que minha língua
confabule em teus pulmões frívolos,
Põe-te a gosto,
degusta,
dos delírios dodecassílabos escondidos
nas voltas do meu vestido.







Autora: Anna Amélia Apolinário de Almeida

Concurso: VI Festival de Poesia Encenada do SESC Paraíba - 2010
Organização: SESC Paraíba - PB
Classificação: 4º Lugar

APOCALÍPTICOS (Poesia de Alam Arezi)

Não caia,
Não surte,
O mundo vai se desvirginar e padecer,
Feito as belas e saudosas películas da década de cinqüenta.

Não morra.
Não sue,
epileticamente estaremos envoltos, abraçados
- E nossas línguas lamberão toda a sujeira das periferias.

Não sinta: ignore.
Não enxergue: tudo estará transparente demais,
A verdade deixará de ser um conceito isomorfo,
e todos os corações irão receber a mesma dose de adrenalina.

Não é agora.
Não é ainda hora.
Bichos atrozes tirarão gravatas, e melancólicos talvez eles pensem:
Em toda a fortuna que poderia ter sido construída com menos dinheiro.







Autor: Alam Arezi
Blog: http://cabecavoodoo.blogspot.com/

Concurso: III Prêmio Literário Canon de Poesia - 2010
Organização: Canon / Fábrica de Livros / Scortecci Editora
Classificação: Seleção para publicação

INSÔNIA (Livro de Contos de André Timm)

Apresentação:


Numa cidade apinhada de prédios, a insônia proporciona encontros furtivos nas janelas dos apartamentos. E, no relance desses olhares, histórias se constroem e expõem o que há de mais obscuro em uma madrugada. Num prédio em que ninguém dorme, a insônia proporciona concretude aos sonhos mais estranhos.

Tal qual a lógica de um edifício, os enredos de Insônia se superpõem numa armação de intrigas que tem como base o cotidiano de pessoas que vivem juntas, mas não se conhecem. É no sutil encontro que existe em estar vendo e ser visto que as histórias se cruzam: por entre salas, corredores e elevadores, vemos o desvario de um compositor frustrado, o jogo bizarro de um seqüestro e vemos ainda outros acontecimentos que desafiam a memória e testam obsessões.

Vemos e somos vistos, pois na madrugada dessas insônias, nossos pesadelos ganham cores sombrias e nossos temores se concretizam em situações que anunciam o desastre. Numa cidade apinhada de pessoas, estamos todos na vigília da vida, confusos entre a realidade e o sonho.

Se os pilares sustentam o concreto, a vida sustenta absurdos – e justamente ao captar o que é efêmero e assustador, André Timm nos coloca frente a frente com a vida e desfecha: concreto, somente os edifícios. Entretanto, em meio a tantos olhares enviesados, encontros ao acaso, músicas e brigas que não se resolvem, Insônia também proporciona concretude à madrugada de nossos medos.


Site do livro:
http://www.andretimm.com/livros







Autor: André Timm
Contato: andretimm@me.com
Blog: http://www.andretimm.com/

Concurso: Prêmio SESC de Literatura - 2010
Organização: SESC - Nacional
Classificação: Menção honrosa