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OUTRO DIA DE INSPIRAÇÃO! (Crônica de Roque JR)

Eram 7h47min deste domingo, 21 de agosto de 2016, quando já estava escrevendo, não marquei a hora que iniciei a pesquisa em várias assuntos para este texto.
Momentos de inspiração devem ser sempre aproveitados, a escrita fica mais interessante, as informações fluem com melhor facilidade, é um turbilhão de dados.
Esteja preparado, quando chegar a tua inspiração, não perca um minuto. Se puder apenas tomar o café, almoçar, jantar, ir ao banheiro e pequenos momentos de relaxamento, será ótimo.
Se possível já deixe arquivos de outros assuntos apostos para alterar os locais e focos dos assuntos dispostos ao teu computador.
Preferencialmente no computador, as ideias fluem com muita rapidez, precisas acompanhar o raciocínio, milhões de informações vem à mente e, certamente por mais rápido que consiga digitar, apenas algumas centenas de dados conseguirá transpor aos arquivos digitais.
Se não tiver outro jeito, pegue uma caneta e um caderno, vá escrevendo tudo, aí não precisas ter mais de um caderno. Para facilitar vá transcrevendo todas as informações que puder, se tiver assuntos diferenciados apenas deixe uma ou duas linhas em branco.
Neste caso terás menos tempo vago ainda, procure escrever de forma que entendas, primordialmente com abreviaturas fáceis de identificar.
Estou aprendendo, muito tenho lido, pesquisado, na literatura em geral. Acredito que o ano da minha primeira obra literária esteja chegando.
Quero dividir contigo, que também podes estar no início de tuas escritas. Precisamos aproveitar as obras das escritoras e escritores e sempre ampliar o número de obras literárias que estarão disponíveis em nossas bibliotecas.
Mais uma vez confirmo que a média de receita ao escritor em livros impressos é 5% das vendas, conforme matéria vinculada em revista. A partir de conversa recente com editora, em meus cálculos seriam necessário vender 200 livros para ter certo lucro.
Precisamos pesquisar a forma de escrever, editar, publicar para baratear o custo da obra.
Continuo com a argumentação de ter obra popular, que muitas pessoas tenham acesso na aquisição de exemplares das mesmas.







Autor: Roque JR
Contato: www.facebook.com/roquejrescritor/
Blog: www.roquejr.com.br

Concurso: XIV Concurso Oscar Bertholdo - 2016
Organização:Biblioteca Pública Olavo Bilac - Prefeitura Municipal de Farroupilha-RS

Classificação: segundo lugar

PODE, ARNALDO! (Crônica de Maurício Fregonesi Falleiros)

Há muito ela desconfiava das atitudes do marido. Ele, como todo homem, não convencia a mulher com suas desculpas mal improvisadas:
            – Isso são horas, Arnaldo?
            – Desculpa, amorzinho. É que roubaram o carro do Paulão, então eu tive que dar uma carona pra ele.
            – Mas isso é motivo pra chegar às 2 horas da manhã?
            – É que roubaram o meu carro também!
            – Sei...
            – Te juro! Aí eu e o Paulão tivemos que correr atrás do bandido, pegar o carro de volta na marra e só depois eu levei ele embora. Que sufoco...
            – E o carro do Paulão?
            – Ah, ele tem seguro...
            – Mas que aventura, hein? Ó, tem comida em cima do fogão, você esquenta. Eu vou dormir.
            E assim as desculpas se sucediam. Uma pior que a outra. Uma menos convincente que a outra. Mas de uma coisa Agrinalda já tinha se convencido: o marido tinha uma amante. Só faltava descobrir quem era a sirigaita.
            Ela pensou em contratar um desses detetives bem canastrões, mas logo mudou de ideia. Ela não era mulher de pagar detetive para vigiar o marido. Ela própria iria colar no safado.
            Em um dia aparentemente normal, uma quarta-feira qualquer, Agrinalda estacionou o carro a uma quadra do trabalho de Arnaldo. Esperou ele sair e, com muita discrição, saiu no encalço do marido. Hoje era dia de festinha, ele não tomara o rumo de casa.
            Pouco depois Arnaldo chegou ao destino. Aquela casa não era estranha para ela. Quando a anfitriã botou a cara na rua, tudo ficou claro:
            – A amante dele é a Suzy, a minha manicure? Eu não acredito. É traição dupla!
            Agrinalda abaixou-se no banco do carro para não ser vista e se pôs a pensar. O que ela faria? Desceria do carro e das tamancas? Daria na cara dos gaiatos e pediria o divórcio no meio da rua? Voltaria para casa e colocaria o marido contra a parede?
            No final das contas não fez nada disso. Preferiu voltar para casa e deixar tudo como estava. Ninguém arrancava aquelas terríveis cutículas dos seus pés como a Suzy.
            Esperou o casal entrar e foi embora. Tinha horário marcado na sexta.







Autor: Maurício Fregonesi Falleiros
Contato: mauricioffalleiros@gmail.com
Blog: viciocronico.wordpress.com

Concurso: VI Concurso Literário de Presidente Prudente - 2012
Organização: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Presidente Prudente
Classificação: Seleção para publicação

DEFICIÊNCIA (Crônica de Rodrigo Domit)

“Deficiência - s. f. - Def.: toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função anatômica, fisiológica, psicológica ou intelectual.”


O carro passou por mim um tanto rápido - não que estivesse correndo, mas seguia em uma velocidade imprudente ao considerar que estávamos dentro do estacionamento de um mercado. Ao avistar uma vaga ali, tão perto da porta, o motorista não hesitou, engatou a ré e começou a manobrar o carro; Sendo a vaga bem ampla, a tarefa nem exigiu muito esforço.

Eu permaneci ali parado, observando - nem sequer atravessei a via. Não era a primeira vez que eu via aquela mesma cena: um sujeito apressado estacionando na vaga reservada para pessoas com deficiência; Mas dessa vez, fiquei tentado a observar todo o desenrolar, só para me certificar se o motorista, sozinho no carro, possuía ou não algum tipo de deficiência.

Enquanto eu seguia em direção à porta do mercado, o sujeito abriu a porta do carro, saiu, olhou por cima do ombro, na direção do guarda do mercado e, só então, fechou a porta e ligou o alarme. Aquele olhar de cumplicidade, seguido por um ar de impunidade, comprovou as minhas suspeitas: era mais um dos irresponsáveis, que provavelmente se diria com pressa ou desligado - quando todos sabem que o diagnóstico é o descaso.

As pessoas que entravam e saiam até chegaram a lançar alguns olhares de reprovação, tanto para ele quanto para o guarda do mercado, mas este, com medo de envolver-se em qualquer confusão e acabar por perder o emprego, fingiu-se de desentendido. Eu fiz o mesmo, olhei para ele e para o guarda, na esperança de que alguém tomasse uma atitude.

Vieram-me à cabeça todas as minhas omissões em situações similares, além de todos os olhares de cumplicidade e esboços de sorriso pela impunidade. Senti-me realmente um cúmplice daquelas atitudes, aceitando-as mudo - cego e surdo; Eu e todos os outros éramos incapazes de protestar.

Foi então que decidi que dessa vez não, eu não ia deixar passar em branco. Antes de abordar o sujeito, cheguei à conclusão de que ele também tinha uma deficiência; Após cutucá-lo pelas costas, avisei:

- Moço, essa vaga não é reservada para quem possuiu apenas deficiência de caráter.

As palmas evitaram uma reação agressiva. Quanto ao constrangimento, que o levou a entrar no carro e partir meio sem rumo, espero que tenha sido a melhor forma de reabilitação.







Autor: Rodrigo Domit
Contato: rodrigodomit@gmail.com
Blog: http://rodrigodomit.blogspot.com

Concurso: 9º Prêmio Paulo Setúbal - 2011
Organização: Secretaria Municipal de Cultura - Tatuí - SP
Classificação: Menção honrosa

REMINISCÊNCIAS DE VÓ (Crônica de Marlene da Silva Leal)

– Vó, o que é reminiscências?
– Onde você viu essa palavra? Perguntei curiosa, pois uma criança de oito anos precisava de ser satisfeita em todas as perguntas que envolvem cultura e sou muito interessada em explicar direitinho o significado das palavras para as crianças.
– Foi nesse livro “Histórias da vovó” que estou lendo para um trabalho da escola.
– Bem, reminiscências é uma palavra que explica direitinho tudo que a vovó tem para contar do seu passado, da sua história, de suas lembranças, de preferência as boas lembranças.
– Você também tem reminiscências?
– Claro, todo mundo que já tem uns cabelinhos brancos tem reminiscências.
– Você vai contar as suas reminiscências para mim? Fiquei pensativa e pensei de onde começar a contar minhas mais doces lembranças da juventude. Tive a ideia de pegar um álbum de fotografias ( coisa em desuso hoje em dia, diga-se de passagem ) e mostrei para ele uma que eu havia tirado para dar de presente ao primeiro namorado.
– Tá vendo essa moça bonita?
– Era você? Aquele “era” me fez compreender o quanto ele havia observado minhas rugas. Sorri e respondi que sim .
– Por que a senhora ficou com o rosto tão diferente?
– Porque não morri, respondi como se ele pudesse alcançar a lógica das
palavras.
– Então quem não morre fica assim? Você vai viver até ficar todinha enrugadinha?
– Desejo que sim. Vou viver até ficar feito um papelzinho bem amassado.
Vou acumular muitas reminiscências para contar para seus filhos.
– A gente pode ter reminiscências do que ainda vai acontecer? Fiquei pensando naquela pergunta , olhei para o teto como a procurar a resposta e disse:
– Reminiscência do que vai acontecer não pode, mas pode virar imaginação, criatividade. É colocar na cabeça uma coisa boa para virar verdade.
– Agora já sei o que é reminiscências: O que passou na vida de uma pessoa de cabelos brancos e também o que pode acontecer na vida de um menino feito eu.







Autora: Marlene da Silva Leal
Contato: marleneleal0212@oi.com.br
Concurso: XII Concurso Literário JI/AEPTI - 2012
Organização: Jornal de Itatiba/AEPTI
Classificação: 4º lugar

DA JANELA (Crônica de Marlene da Silva Leal)

Recentemente visitei uma amiga que se mudou para Copacabana. Ela estava entusiasmada com o bairro, por causa das facilidades que este oferece. Disse-me que é só pegar o elevador e descer para comprar o pãozinho fresco, as frutas, os remédios e o que é melhor: Ter a praia próxima. Isso sem falar na diversão noturna. Tem mais barzinho do que esquina. Nada melhor do que sentar à tardinha para jogar conversa fora degustando um quitute de botequim ou tomar água de coco no calçadão de pedras portuguesas mais famoso do mundo.

Quando cheguei ao andar em que morava, ela abriu a porta e os braços para me receber.

Entrei passando os olhos em tudo que via atestando o bom gosto da decoração do pequeno flat. Nada mal para uma pessoa que pretende morar sozinha. Tudo muito prático e “clean”.

Porém, ao chegar à janela dei de cara com muitas outras janelas abertas expondo suas intimidades. Corri os olhos disfarçadamente por dentro de algumas e constatei a naturalidade com que as pessoas transitavam sem cerimônia em trajes sumários, sem nenhum pudor, como se estivessem num reality show natural. Estavam ali para serem vistas. Raros apartamentos com as cortinas cerradas.

Voltei-me para dentro ao perceber que estava sendo observada por um senhor. O olhar de reprovação que me lançou desencorajou-me a permanecer na janela.

Minha amiga fazia um café convidativo e enquanto espalhava o aroma soltava mil palavras para contar como fora feita a mudança. Conversa vai, conversa vem por algumas horas até que resolvi ir embora antes do horário do rush.

Enquanto dirigia o sol ainda teimava em refletir seus raios nas nuvens de algodão no céu do Aterro. Vinha pensando como era bom chegar à casa e contemplar da minha janela as árvores frutíferas do vizinho, onde bem-te-vis, bicos- de- lacre, rolinhas, beija-flores, pardais, viuvinhas, borboletas, morcegos e até um casal de gaviões carijós desfilam aos nossos olhos enfeitando o que resta da Natureza, neste bairro de subúrbio.
Um abacateiro, duas bananeiras, uma goiabeira, duas mangueiras, uma jaqueira e pasmem: Um pau-brasil com mais de nove metros.

Não sou dona do verde que posso contemplar do meu apartamento, mas o visual me pertence até que um dia , quem sabe, a especulação imobiliária chegue até aqui e me roube esse prazer de chegar à janela sem constrangimento.







Autor: Marlene da Silva Leal
Contato: marleneleal0212@oi.com.br

Concurso: Concurso de Crônicas Foed Castro Chamma - 2012
Organização: Academia de Letras Artes e Ciências do Centro Sul do Paraná (ALACS)
Classificação: Menção honrosa

ARTE E VIDA SEVERINA (Crônica de Tarlei Martins Ferreira)


     Quando nasceu, um anjo baldio desses que fingem brincar de Deus disse: vai, menino, ser feliz na vida! E ele foi! Desde então vem ele bordando no tecido do tempo sua arte e vida severina. É possível que ele siga as linhas invisíveis do risco de um bordado previamente traçado. Ele pouco sabe. Desconfia apenas de sua sina de tecelão e, graças a ela, entrega-se ao ofício de tramar os fios da vida. Enquanto isso, o tempo, um senhor tão bonito, brinca ao redor do caminho daquele menino.
     Lá está ele, menino-criança, entregue às experiências inaugurais, aquelas que pavimentam o chão da memória com pedrinhas de brilhante. É o tempo dos primeiros encantamentos, das primeiras descobertas, dos primeiros sustos, das primeiras letras, da alegria da vida solta, da revoada de primos da mesma idade, das frutas colhidas no pé, do pé no chão. É o tempo da vida miúda na miúda Buriti Alegre, pequenino lugarejo encantado, beira-planalto, nos confins de Goiás. Só quase vereda, mas tão de repente mítico! É o tempo do abandono do pai. Havia no pai um desejo de rio – e o pai se deixou navegar errante pelas correntezas até aportar numa terceira margem.
     Um pouco mais, já é um menino-adolescente, entregue aos sonhos impossíveis, aqueles que insistem em povoar o casulo da imaginação. É o tempo dos primeiros conflitos, dos desconfortos com um crescer estabanado, do maravilhamento com as surpresas do corpo, dos primeiros tremores do coração. É o tempo da busca de um norte. Havia no menino um desejo de barco – mas seu coração era bússola desnorteada e o menino aprisionava-se na insegurança e na indecisão.
     Mais adiante e ei-lo menino-rapaz, entregue aos sonhos possíveis, aqueles que migraram do casulo da imaginação para o palco da ação. É o tempo do desassossego, do sobressalto, da mudança para uma cidade nova, do desafio do vestibular, da descoberta da leitura, do encantamento diante de tudo que leva a assinatura da imaginação, do mergulho na arte (a arte que sustenta a vida real). É o tempo das grandes dificuldades, dos grandes medos, das grandes incertezas. É o tempo de uma conquista fundamental – o ingresso no Banco do Brasil. É o tempo de uma tranqüilidade financeira inédita para um menino que, junto com a mãe e dois irmãos, vinha cumprindo, sem amargura, sem revolta, o estatuto civil da pobreza. É hora de dizer que havia na mãe um desejo de raiz – e a mãe fez o que pôde para manter seus frutos ao abrigo de sua árvore.
     Ali na curva dos trinta, menino-homem, está ele entregue a uma paixão com contornos de para sempre, daquelas que parecem decretar o início, o fim e o meio. É o tempo de sedimentar conquistas, de se apegar mais ainda à vida e seu incessante cortejo de dor e delícia, de acreditar que nas dobras do ordinário pode estar o extraordinário. É o tempo de ensaiar mais um vôo. Havia no menino um desejo de asas – e ele acabou pousando numa das asas de Brasília, o seu sonho feliz de cidade, de onde só pensa voar rumo ao derradeiro pouso.
     Agora, para sempre homenino, está ele entregue à travessia da casa dos quarenta, inteiramente despreocupado com o final dessa travessia. É o tempo da vida tranqüila, da paixão que virou uma amizade mais que amorosa, da calmaria de quem quer muito pouco. É o tempo de apreciar a vida se vivendo nele e ao redor dele. Há sempre no homenino um desejo de vela – e ele cuida de manter seu barco o mais possível na rota dos ventos favoráveis.
     Mas quem é esse menino? É um menino do Brasil que se confunde com outros tantos meninos severinos, iguais em tudo na vida, iguais em tudo e na sina. É um menino brasileiro que não se cansa de ter a esperança de um dia ser tudo o que quer.







Autor: Tarlei Martins Ferreira
Blog: www.artevida.blog.br

Concurso: VII Concurso Rubem Braga de Crônicas - 2012
Organização: Academia Cachoeirense de Letras
Classificação: Destaque

REATO (Crônica de Rachel Queiroz Zuliani)


Ele tinha começado a me oprimir, não aguentava mais. Os problemas cresciam, as dificuldades entre nós eram tão grandes: não me consentia ter um trabalho, receber um salário que me permitisse o mínimo de autonomia.  Começou a ficar muito mais violento do que eu pudesse suportar. É sim, eu já estava acostumada com as agressões, seqüestros, assaltos, confusões e bebedeiras em geral, muita bandidagem, falta de educação e respeito com as pessoas. Eu, pobre coitada, indefesa, romântica idealista, continuava a sonhar e ver os pontos positivos, a beleza escondida em um canto ou outro, algumas iniciativas altruístas, qualquer fatia de felicidade.
Na confusão dos rumores absurdos a qualquer hora do dia ou da noite, sem respeito pelo espaço alheio, tentava descobrir qualquer nota de música e apreciar o percentual da arte que sobrevivia na silepse da sua essência. Observava certas paisagens e pensava que diante de tão grande beleza, sem ele eu não podia ser feliz. Continuava naquele relacionamento contrastado pelo amor e o ódio, até que meu físico começou a sentir o cansaço e as idéias foram ficando mais fortes: vou fugir! Vou criar asas e voar para longe, para muito além dos confins! Certos dias, massacrada pela realidade e vivendo a hipocrisia daquele amor, me envergonhava de não fazer algo para melhorar a situação: lutar, juntar forças e lutar, resolver as desavenças, construir um futuro melhor....quantas idéias que não era capaz de realizar.
Foi uma decisão de ímpeto, daquelas que nascem no coração e na razão contemporaneamente, o deixei. Ele ficou lá, deitado em berço esplêndido, lindo e violento, cheio de contradições, e eu encontrei outra vida, me deparei com o novo, convenci meu coração, adaptei minha razão. Não foi tudo fácil, mas muito aventureiro. Um novo amor, mil descobertas.
Era precioso saborear a nova gastronomia, sentir o novo perfume e caminhar de mãos dadas com a sua civilidade. Mas todo amor, no início, não vê os defeitos, eu era afinal uma estranha para todos os seus, e as vezes me olhavam como uma prostituta, quando não me tratavam como uma desgraçada. Fui sobrevivendo, costurando os retalhos e formando minha história.
Agora, cá estou , após tantos anos, com a passagem na mão e as lágrimas nos olhos, imaginando quando meu corpo tremer diante do meu primeiro amor, a quem resolvi reatar contato. Como farei diante de tantas mudanças que os tempos trouxeram e eu não acompanhei? Não posso mais dizer que o conheço como a palma da minha mão, e isto me amedronta muito mais de todas as violências que posso me deparar escolhendo esta via de retorno discutível. Não conheço as últimas novidades, as novas gírias que estão rolando, a canção do momento. Estou com medo de me perder e não o encontrar como o deixei, como o conhecia. E se tiver piorado justamente no que mais me encantava? Como uma adolescente inconsciente me alegro pensando a banais encontros e sabores quase esquecidos.
Faço mil planos, tantos projetos, a esperança lutando contra o medo do reencontro com o meu país amado: Brasil.









Autor: Rachel Queiroz Zuliani
Contato: rqzuliani@yahoo.com
Blog: rachelqueirozzuliani.blogspot.com

Concurso: VII Concurso Rubem Braga de Crônicas  - 2012
Organização: Academia Cachoeirense de Letras (ACL)
Classificação: Destaque

12 GRAUS (Crônica de Maurício Fregonesi Falleiros)


O Américo e a Silvânia viviam brigando por causa do ar-condicionado. Para ele sempre estava muito quente. Para ela, frio demais. Como também deve acontecer no lugar em que você trabalha.
Todo dia era a mesma ladainha:
– Nossa, Américo, que gelo. Desliga esse ar.
– Você quer que todo mundo cozinhe aqui dentro? Não vou desligar.
– Meu cérebro já está congelando. Desliga esse ar!
– Não vou desligar. Coloca uma blusa.
– Eu não trouxe blusa. E nem vou trazer só porque você quer.
– Então não reclama.
– Reclamo, sim! Você é um egoísta.
– E você é uma chata!
– Não sou chata, sou friorenta.
– E senta bem de frente para o ar?
– Que culpa eu tenho? O chefe me colocou para sentar aqui.
– Quer trocar de lugar? Eu troco com você.
– Eu não. O sol bate bem na cara aí.
– Então não reclama.
– Reclamo, sim. Você não é dono desse ar!
– Nem você.
– Falando assim você parece uma criança, Américo.
– E você uma velha.
– Como você é grosso. É impossível conversar com você. Volta pra caverna, volta.
– Já instalaram ar-condicionado lá?
Quando não estavam discutindo, estavam agindo. Ele saía para tomar um cafezinho, ela aproveitava para desligar o ar. Ela dava um pulinho no banheiro, ele ligava de novo. Ele ia pegar uma impressão, ela roubava o controle do aparelho. Ela ia fumar um cigarrinho, ele sequestrava o almoço dela e exigia o controle como pagamento pelo resgate.
Certa vez, chegaram a queimar o ar com aquele liga e desliga. Levaram uma tremenda advertência e ainda tiveram que bancar sozinhos o conserto. Prometeram nunca mais brigar, mas foi só o aparelho voltar da assistência para o imbróglio recomeçar.
O chefe do departamento já tinha perdido as esperanças de dar um jeito neles – e não iria demiti-los, pois eram de longe os melhores funcionários – quando o Julião, que tinha esquecido os fones de ouvido aquele dia, resolveu intervir. E gritou do outro lado da sala:
– Silvânia, sabia que o ar gelado acelera o metabolismo e ajuda a emagrecer?
Hoje a temperatura média do escritório é de 12 graus. E quem achar que está frio demais que vá de blusa! Ou que vá falar com a Silvânia...







Autor: Maurício Fregonesi Falleiros
Contato: mauricioffalleiros@gmail.com
Blog: http://viciocronico.wordpress.com

Concurso: VII Concurso Rubem Braga de Crônicas
Organização: Academia Cachoeirense de Letras (ACL)
Classificação: Destaque

Coletânea do 1º Prêmio Escriba de Crônicas

Apresentação:


A Prefeitura do Município de Piracicaba, através da Secretaria da Ação Cultural e da Biblioteca Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”, realizou em 2011 o 1º Prêmio Escriba de Crônicas.

A coletânea é composta pelas seguintes obras e autores:

1º Lugar
FUTBOL GAUDI de Ricardo Fagundes Sangiovanni (Salvador – BA)

2º Lugar
O GALO DO VIZINHO de Paulo Virgilio D’Auria (São Paulo – SP)

3º Lugar
O MEU O MAR de Aruanã Bento Ramos da Costa (Rio de Janeiro – RJ)

Menções Honrosas
UM MANCEBO NO CANTO DO QUARTO de José Carlos Santos Peres (Avaré – SP)
ZORRO VERSOS DOM QUIXOTE de Cláudio Alves da Silva (São João de Meriti – RJ)
EU E EU de Marco Antonio Rodrigues da Silva (Niterói – RJ)
DE AGULHAS E LINHAS de Ubirajara Ramalho Neiva (Belo Horizonte – MG)
O VIZINHO de Carlos José Rosa Moreira (Niterói – RJ)
TERMINAL RODOVIÁRIO de Denivaldo Piaia (Campinas – SP)
INSURREIÇÕES DOMÉSTICAS de Danilo Drumond Avelino (Belo Horizonte – MG)

Selecionados para Publicação
MANOEL OLEIRO de Darío Alejandro Poyanco Bravo (Belo Horizonte – MG)
SOMOS INQUILINOS DO ALÉM de Adriano Machado Facioli (Brasilia – DF)
MARGARIDINHA de Diogo Cezar Borges (Rio de Janeiro – RJ)
O LÁ DE FORA ASSOMA de Marcelo Benini (Brasília – DF)
EU MORO EM de André Telucazu Kondo (Caraguatatuba – SP)
SOBRE DEUSES ESQUECIDOS de Sérgio Bernardo (Nova Friburgo – RJ)
AS SEGUNDAS DO SEU ADALTO de Marlos Degani (Nova Iguaçu – RJ)
UM A UM de Isolda Santos Herculano (Maceió – AL)
COMO A FERRUGEM E A TRAÇA de Jose Luiz Dias Campos Junior (São Paulo – SP)
ESPERANÇA SERTANEJA de Patricia Diniz Santos (Natal – RN)

Melhor de Piracicaba
A MAGIA DAS CASAS ANTIGAS de Ivana Maria França de Negri (Piracicaba – SP)



E-book:
http://biblioteca.piracicaba.sp.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/11/I-Premio-Escriba-de-Cronicas-2011-WEB.pdf







Concurso: 1º Prêmio Escriba de Crônicas - 2011
Organização: Prefeitura do Município de Piracicaba - SP

EM SILÊNCIO (Crônica de Maurício Fregonesi Falleiros)

Como é comum em muitos casais de longa data, eles jantavam praticamente em silêncio. Estava mais fácil encontrar recheio num pastel de vento do que acontecer um diálogo naquela mesa. E isso já tinha virado rotina.

Fosse o jantar em uma simples cantina italiana ou até mesmo em um charmoso bistrô francês, não importava. O assunto não surgia. Durante a noite toda, o máximo que se ouvia eram os burocráticos “Já escolheu?”, “Vamos pedir?”, “Vamos embora?”.

É claro que Lucinda não se conformava com aquilo. Mas como tudo na vida, ela já tinha se acostumado com a situação e simplesmente não dizia nada ao marido. Nem cobrava nem reclamava. E olha que isso é muito difícil para qualquer mulher.

Somente quando essa pasmaceira chegou à sala de jantar do casal é que ela resolveu tomar uma atitude. Para Lucinda, era inadmissível que em sua própria casa ela não pudesse ter míseros 5 minutos de atenção de Tadeu, seu esposo de pouquíssimas palavras. E ela não estava disposta a exercer seus dotes teatrais realizando um monólogo.

A gota d’água foi num sábado, em meio a um bobó cheio de camarão, sua especialidade. Ao perceber que o marido não arriscara um mero elogio, um simples “Hum, amor. Mas que delícia.”, ela esbravejou:

– Fala alguma coisa, Tadeu! Não aguento mais ficar na mesa olhando pra sua cara e você não falando nada, não puxando assunto. Tá cansado do casamento? Fala agora. Senão vai ser pior depois.

Ele, sem mudar de feição, respondeu:

– Ô, Lucinda. Passa o sal, que esse bobó tá meio sem graça. Você tem errado na mão na hora de temperar, hein?

Ela não acreditou no que ouviu. Ele tinha criticado o seu bobó cheio de camarão, a sua especialidade, na sua frente. A vontade era de errar a mão na cara do ingrato. Mas ela pensou bem e preferiu não responder ao marido. Viu que o casamento estava melhor quando o Tadeu não falava nada.







Autor: Maurício Fregonesi Falleiros
Contato: mauricioffalleiros@gmail.com
Blog: http://viciocronico.wordpress.com/

Concurso: 1º Concurso Literário da AMLAC - 2011
Organização: AMLAC - Academia Metropolitana de Letras, Artes e Ciências - SP
Classificação: 3º Lugar

CONFRONTOS DE UMA PSICOFÊMEA (Livro de Crônicas de Regina Araujo)

Apresentação:



Premiado com melhor livro de crônicas escritas por mulheres pelo Concurso Literário Internacional da União Brasileira de Escritores/RJ, o livro de Regina Araujo apresenta textos cômicos; tragi-cômicos; reflexivos e profundamente críticos, alguns estereotipados pela realidade de sua experiência profissional como Psicóloga Clínica, sendo ao mesmo tempo uma mulher que procura desvendar e fincar novos conceitos de comportamento retratando situações familiares, sociais, profissionais, culturais, sexuais, etc. São dezoito crônicas ilustradas, para todos os gostos.
O livro recebe um belo prefácio de Edir Meirelles e inteligente posfácio de Messody Benoliel.


Site do Livro:
http://perse.doneit.com.br/paginas/DetalhesLivro.aspx?ItemID=931







Autora: Regina Araujo
Contato: regina.araujo.escritora@oi.com.br
Blog: http://muraldosescritores.ning.com/profile/ReginaAraujo

Concurso: Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores
Organização: União Brasileira de Escritores (Seção Rio de Janeiro) - RJ
Classificação: 1º Lugar