METADE DOUTRA SOMBRA (Poema de Nijair Araújo Pinto)

Como jovem sombra, surgida da repetida nova era,

Derrotada pela desilusão da triste e sufocante quimera,

Odeio vivenciar toda a maldade das torpes militâncias.

O clamor da vida, o sofrimento do povo, o medo...

Estão claramente expostos, não há nenhum segredo:

A vida ainda é vintém e o sofrimento causa repugnância.



A desconstrução da realidade quase me desequilibra.

É na dor da lágrima, um plágio do azul da doce hidra,

Que busco a razão solene dos gritos inglórios meus.

Ah! Sei que existem mares verdes, de águas revoltas,

Onde a vida se faz plena e a pena voa leve e solta,

Perseverando, no âmago sofrido, a luz alheia ao breu.



Preso ao chão, refém e prisioneiro do cinzento concreto,

Desconheço a paz vazia de sentido e todo o circunspecto

Da antonímia de viver alheio ao sabor da liberdade plena.

Estou livre dentro de carcaças que se movem presas entre si.

Busco, na solidão do grito, um estar sempre perto, longe de ti.

E me eternizo quando choro, no esvair-se da lágrima em cena.



Sou homem da paz, incrustrado num mundo de armas

Que me aprisionam, involuntariamente, impondo-me amarras.

Se as guerras necessitam de mim e de todos os indefesos;

Se lutamos, embora nossa causa não esteja em discussão.

É a partir das lutas, de todas elas, que saímos da opressão.

Afinal, odiamos servir de bucha e descartáveis contrapesos.



Minha garganta está ressequida pelo tempo de espera vã.

Essas lutas, de priscas eras, de outros povos e longínquos clãs,

Não são minhas – nem poderiam ser! –, mas me maltratam.

Porque me dói no peito a dor alheia que me desferem,

Ocultando, em gotas diminutas, a monstruosidade do que querem.

Minha pele sofre e meus olhos lacrimejam o Sol que captam.



Do seu tempo até o meu, Augusto, há vários novos túmulos!

Também houve novas melodias de pesadas nuvens cúmulos.

E a vida, entre o calor e o frio; entre o Sol e a Lua e as nuvens,

Ressurge a cada nova aurora, sem nada nos perguntar a nós!

Se estamos em grupos, gregários, ou se estaremos a sós,

O importante é que estejamos bem, reluzentes, cheios de lúmens!



Ah, querido Augusto, como ainda existem as plebeias!

As desilusões da cama, quando pulsam as sedentas artérias,

Não se tornaram inférteis – apesar da evolução humana.

Os corpos ainda se buscam e agora, de modo mais profano,

Multidões de acéfalos se destemperam nesse mundo insano,

Caçando o prazer alhures, movidos pela maldita trama!



Tentei quebrar as fragilizadas normas, como outrora fizeste.

Descobri-me dissonante e me chamaram de tolo e de cafajeste!

Passageira é a vida – os homens, pilotamos sem rumo.

E os vagões, coordenados e iluminados pela luz que emana,

Esboçam, nas curvas, novos rumos... Mas o povo clama,

Exigindo que o maldito condutor mantenha o prumo!



Que me achem e me joguem o corpo fora, como peste!

Nasci em paragens quentes, mórbidas, no sertão do agreste,

Ruminando o pão de cada dia feito o cão da gota serena!

Meu tormento não é cíclico – é recalcitrante – e lamento,

Apesar da felicidade interior, estampada no firmamento,

Não poder sentir, antes da morte, o sabor da virgem Açucena.



Meu estrangulamento não me aperta o grito.

O que me aflige é o inútil soberano árbitro sem apito,

Repetindo máscaras diante de conflitos vários.

As questões são únicas, de atores aparentemente parecidos;

os critérios diferem entre os “senhores” e os desvalidos.

No mar das aparências, existem mudos, cárceres e aquários.



O gozo apraz somente um dos elos,

Fulminando o outro com batidas de martelo.

Quiromancia, adivinhações feitas ao léu,

Revelando o óbvio que pulula, ululante,

Deixam o povo a ver navios inconstantes

Que singram os mares aos olhos do céu.



Somos o ressurgir de ossos reciclados.

O resultado posterior de corpos enlaçados...

Movimentados pela razão do alimento,

Desvendando os segredos que escondem as vísceras,

Justificamos os desejos e, nas multíparas,

Confirmamos o porquê dos sofrimentos.



É o caos quem nos desarruma, criando a entropia.

Mas isso vem de longe, desde a Antuérpia!

Se os homens que nasceram e se foram,

Brincando de viventes, se tais seres moribundos,

Abriram caminhos para novos, d’além-oriundos,

Não sentem, depois dos Séculos, os que choram!



Há banquete para um povo delirante!

Guiando a manada, toca-se o berrante...

Do gado morto e da carne que se estraga e apodrece,

Os convivas, embriagados, de nada desconfiam.

Afinal, existe fartura e, do banquete que apreciam,

Surge o torpor da festa tramada pela falsa prece.



Será que existiriam vidas loucas, loucos?

Tudo se perderia diante dos destroços.

Nenhum coágulo se forma sem vida prévia.

De que serviriam as preces, todas as vigílias,

Quando dentro de nós há vazios sem mobílias?

Meu sonho é o de Ícaro, voando para a Grécia!



Perdeu-se a ribalta do sequioso sátiro.

Esquecido, mortificou-se na solidão do átrio,

Onde a plateia, silenciosa, nada aplaudiu.

Ao contrário, revoltada, sentindo-se ultrajada,

Fitava o também silente homem em disparada,

Implorando por glorioso espetáculo que não viu.



Cálidas canções construíram o cáften!

Uma a uma, elas se ajuntaram no harém.

Ao sabor das melodias, transpirando em gemidos,

Damas esbeltas de corpos soltos, no espelho,

Refletiam desejosas vozes: de homens e pentelhos.

Chegou a Polícia! Todos correram – houve alaridos.



Soltas, na ausência de provas e entregues as penhoras,

As inocentes esbanjavam argúcia – pobres senhoras!

Vítimas da luxúria de sedentos homens que atacam,

Buscando o prazer das noviças, de carnes nuas,

Vendiam-se ao sabor do tempo, fugindo do frio das ruas.

Na realidade, doam-se pelo vintém por que clamam.



Não busco provar nada, posto que somos falíveis.

Quais, portanto, seriam nossas razões críveis,

Com as quais deitamos corpos inocentes por pagamento?

Se a razão está na beleza, na contraprestação estética,

Que rufem os tambores e que se cumpra a arma profética

Do pecado, do temor e do arrebatamento.



Há turbilhões que me execram – busco a solidão.

E do meu grito, espaçado, surge o furor do trovão.

Meu corpo apresenta espasmos. Da aorta,

Excitada pela revolta de todo silenciar pecaminoso,

Reverbera o som do meu brado estrondoso,

Denunciando os infindos ciclos da sombra morta!







Autor: Nijair Araújo Pinto
Contato: nijair@hotmail.com
Blog: http://www.recantodasletras.com.br/autores/Nijair

Concurso: 21º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos - 2012
Organização: ALLA – Academia Leopoldinense de Letras e Artes
Classificação: 1º colocado

Um comentário:

  1. Em 2016, se Deus permitir, retornarei aos concursos literários - excelente oportunidade para aprender e conhecer amigos de todo Brasil!

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